O Cantinho de Tatyana Casarino. Aqui você encontrará Textos diversos e Poesias simples com a medida do coração.









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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O homem da boina

                 
       

     Olá, pessoal! Hoje eu vou postar mais um Conto de Humor de Catarina, a Mística. Trata-se de uma aventura de duas grandes amigas que visualizam um homem de boina e suspensório dentro de um Shopping Center. Espero que gostem! Boas risadas e reflexões! Vamos rir para transformar!
   

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  O homem da boina

                     


   Catarina e Sandra tinham combinado de ir ao Shopping naquele sábado. A praça de alimentação era o ponto de encontro das duas. Sandra é uma amiga muito querida de Catarina. E aquela amizade era tão rara quanto o pote de ouro no fim do arco-íris. 
    Aos 19 anos e no quarto semestre do Curso de Direito, Catarina tinha mudado um pouco o seu círculo de amizade dentro da faculdade, já que Joana e Estela haviam saído do Curso de Direito. Muito embora Sandra também tivesse saído do Direito, ela permanecia na vida de Catarina. E Catarina sabia que ela permaneceria em sua vida para sempre. Aquela amizade estava muito além do Direito, já que era uma amizade de almas companheiras. 
   Ao lado de Sandra, Catarina se sentia confortável para ser ela mesma, pois não havia competição, comparação, preconceitos, inveja, rixa de mulheres ou qualquer outro sentimento mesquinho do ego humano. Eram apenas duas garotas que se amavam fraternalmente, como duas irmãs separadas na maternidade. 
     Uma desejava o bem da outra e os olhos dela brilhavam quando se encontravam. Ambas se aceitavam incondicionalmente. Elas admiravam as virtudes uma da outra e compreendiam os seus defeitos. 
    Catarina se sentia confortável emocionalmente e espiritualmente ao lado de Sandra, a qual nunca cobrou que Catarina fosse algo além do que ela é. Sandra nunca cobiçou nada de Catarina, assim como Catarina nunca cobiçou nada de Sandra. Sandra nunca cobrou que Catarina fosse às baladas ou qualquer outro lugar desagradável. 
    Sandra aceitava os limites de Catarina, respeitava as suas crenças, o seu misticismo, a sua família, o seu lar e os seus sentimentos. Sandra sempre trazia boas energias à Catarina, construindo uma amizade saudável, onde ninguém sugava ou perturbava ninguém. Quando uma amiga tinha alguma espécie de problema emocional, a outra ajudava e dava conselhos. 
    Sandra também se sentia confortável ao lado de Catarina, pois se sentia amada incondicionalmente. Ela sabia que Catarina via a sua essência mais preciosa por trás de qualquer oscilação de humor que apresentasse. Quando as duas se encontravam, eram como duas estrelas que brilhavam mutuamente.
     Pouco importava o lugar do encontro ou a hora do encontro, pois, quando as duas se encontravam, um simples Shopping poderia ser um castelo de Conto de Fadas e o relógio sempre parava. A companhia da amiga era tão agradável, serena e amorosa que o tempo estacionava. 
    Os passeios mais comuns entre as duas eram: visitar a casa uma da outra, andar pelo parque com os cachorros, ir ao clube, passear no calçadão, visitar bancas de revistas para comprar gibis e, é claro, passear no Shopping. O Shopping não era um lugar agradável para ambas, pois elas preferiam o ar fresco do parque. Mas era o lugar mais fácil onde Catarina poderia encontrar a sua amiga com mais frequência. Depois que o vizinho de Sandra foi assaltado no parque, as amigas ficaram com medo de passear ao ar livre. 
     Chegando no Shopping, as duas se sentavam na praça de alimentação. Durante a conversa, o tempo parava e era como se não existissem Shopping nem Praça de alimentação. Tudo o que havia eram duas garotas em um único universo. Eram os encontros de amizade mais mágicos que alguém poderia ter. (muito mais mágicos do que muitos encontros românticos por aí). 
     Os diálogos entre as duas eram saudáveis. Ambas falavam e ouviam, pois ninguém competia para dominar a conversa. Ambas tinham empatia uma pela outra (tratando-se de duas empatas espirituais, empatia nunca faltava). Às vezes, Sandra contava um de seus casos amorosos, e as amigas soltavam risos. Catarina adorava o som da risada de Sandra, a qual era espontânea, alegre e cheia de energia. Sandra era como um fogo que nunca se apaga.
      Catarina jamais desejou que sua amiga fosse um milímetro diferente do que ela era, pois, mesmo com seus defeitos e desafios, ela não teria a mesma graça se não fosse a sua personalidade sensível, excêntrica e altamente bem humorada. 
     Porém, naquele sábado, algo marcou as garotas: a passagem de um homem de boina pelo Shopping. Era um homem alto, de cabelos castanhos claros e pele clara. A postura dele era altiva, forte e excêntrica. Ele usava uma camisa branca, suspensório e calça preta. 
     --Eu confesso que eu gosto de homens feios. --Declarou Sandra antes de soltar aquela gargalhada maravilhosa. -- Os bonitinhos às vezes são tão sem graça. Mas, tem cada feio bonito por aí. 
     --E eu confesso que eu gosto de homens excêntricos. A normalidade enjoa, mas a esquisitice mexe com algum fogo em mim. --Afirmou Catarina antes das amigas caírem na risada. 
     --Você tem um sério vínculo com a excentricidade. Sua aparência é mais convencional do que a sua essência.
     --Talvez minha alma gêmea seja excêntrica. Eu gosto de homens que parecem ter saído de algum livro antigo do século passado. 
      --Mas, eu acho, amiga, sinceramente que você combinaria com alguém mais moderno e...
        --Oh! Meu Deus!--Exclamou Catarina, interrompendo a fala de Sandra. --Veja só aquele homem que sensacional!-- Disse Catarina enquanto apontava para um homem que usava boina e suspensório.
        --O que há de sensacional nele, Catarina?
        --Ele usa boina e suspensório! Ai! Meu Deus! 
        --Catarina, você está respirando direito, menina? Você parece sem ar, em transe, com os olhos arregalados! Amiga, eu estou preocupada com você!
         --Amiga, eu simplesmente não posso ver um homem de suspensório. É um acessório tão charmoso que me dá palpitação, tremedeira e falta de ar. 
         --Catarina, você está louca! --Exclamou Sandra com bom humor antes das duas amigas soltarem uma gargalhada. 
         --Meus Deus, e ele ainda usa boina. Você tem noção do quanto isso é charmoso? Você percebe o quanto ele é especial? 
          --Não, eu não vejo nada especial nele. É apenas um homem de boina e suspensório.
           --Ele é lindo! Ele parece um personagem de época perdido nos tempos atuais. Vamos seguir este rapaz para ver até onde ele vai. Ele parece ter saltado de um livro romântico. Ai! Meu Deus!
            --Catarina, você está louca? Ele tem cara de louco e anda de um jeito esquisito. E se for um psicopata disfarçado?
             --Imagine só!--Exclamou Catarina entre gargalhadas. --Os olhos verdes dele são tão brilhantes. Ele deve ter uma boa alma. Os olhos são as janelas da alma. Consegue ler a alma dele para mim?
              --Nessas horas, a intuição e o misticismo ajudam, mas também devemos ser realistas, amiga. Ele é apenas um homem de boina e suspensório.
              --Vamos seguir este homem! Vamos seguir este homem! 
              --Amiga, ele parece pertencer a outra realidade. Vamos ficar aqui paradas, sentadinhas na praça de alimentação. Evite olhar para ele, por favor. Você está vidrada na boina dele. 
               --Isto é maravilhoso. Eu também pertenço a outro mundo! Veja só que coincidência!
              --Catarina, respire fundo! Você está eufórica demais.
              --Eu preciso seguir este homem!
              --Seguir este louco de suspensório? Amiga, você não é paparazzi e ele não é famoso. 
              --Amiga, ele está saindo da praça de alimentação. Vamos ver onde ele vai?
              --Tudo bem. Vamos seguir este homem. O que eu não faço diante do brilho de seus olhos tão cheios de entusiasmo? Mas, nada de tirar fotos dele!
               --Quem disse que eu vou fotografar um desconhecido? Eu curso Direito. Não farei nada contra a lei. Eu vou apenas fotografar os passos dele com os meus olhos!
                As duas amigas seguiram o homem de boina e suspensório pelo Shopping. Subiram para o próximo andar pela mesma escada rolante que ele havia subido e entraram na mesma loja visitada pelo rapaz. Ele havia entrado em uma Tabacaria para comprar um jogo de xadrez, um charuto e um cachimbo. 
                --Ai! Meu Deus! Ele sabe jogar xadrez. Eu amo jogar xadrez também. Minha nossa, ele é demais!--Afirmava Catarina com brilho nos olhos enquanto se escondia atrás de uma pilastra do Shopping com a sua amiga para admirar aquele homem que parecia um personagem. 
                  De repente, o homem se sentou em um banco do shopping, pegou um isqueiro e acendeu o charuto. Ele tinha o olhar vago, perdido naquele momento. Parecia estar completamente "fora de órbita" enquanto fumava o charuto. Naquele instante, começou a falar sozinho. Catarina e Sandra perceberam que ele olhava muito para o lado esquerdo, como se houvesse um amigo imaginário ao lado dele ou algo do tipo. O homem da boina também começou a olhar para trás de forma irritada, como se soubesse que estava sendo vigiado por elas. 
                  Quando a fumaça do charuto começou a ficar saliente e a expelir odor, um segurança do shopping apareceu perto dele. Era um homem afrodescendente, alto, de ombros largos, careca e vestia um terno e gravata. O homem da boina parecia não notar a presença do segurança e continuava com o seu olhar "fora de órbita". 
                 --Eu não estou sendo seguido pelo F.B.I. Chega de me dizer isso! Chega, entendeu? Amanhã mesmo eu pego o ônibus para São Paulo. Assim, eu me escondo desses seguidores. --Dizia o homem da boina enquanto gesticulava para o seu provável "amigo imaginário". Ele parecia conversar com a própria consciência ou ouvir vozes. 
                 --O senhor não pode fumar dentro do shopping.--Disse o segurança com voz firme e bem masculina.
                 --Quem é você? Você também está me perseguindo?--Indagou o homem da boina. Naquele momento, chegou uma jovem que tinha a mesma aparência física do homem lunático. Ela era alta, tinha a pele branca e cabelos castanhos claros. Os olhos dela também tinham a mesma cor dos olhos dele. 
                  --Por favor, não precisa chamar mais seguranças.--Disse a jovem quando o segurança estava prestes a chamar seus colegas pelo seu rádio comunicador. --O meu irmão é esquizofrênico. 
                  --Eu tenho certeza que hoje eu estive sendo perseguido por duas pessoas neste shopping. 
                 --Mano, você já tomou o seu remédio hoje? Apague o seu charuto! Vamos para casa! 
                 --Catarina, eu disse que ele era louco.--Sussurrou Sandra no ouvido da amiga. --Vamos dar o fora daqui. 
                  As duas amigas saíram atrás da pilastra. Mas, o homem da boina olhou para trás assim que ouviu o barulho dos passos delas. O salto alto dos sapatos das garotas eram um pouco estridentes e ele ficou irritado. 
                  --Vocês duas são espiãs?--Indagou o homem da boina. --Por que estão me perseguindo?
                   --Eu sinto muito se perturbei o seu dia de alguma forma. Não foi a minha intenção. Pode parecer constrangedor admitir isso, mas eu e minha amiga realmente seguimos o seu trajeto aqui no shopping. Não somos espiãs. Seguimos os seus passos de forma puramente inocente. Somos apenas duas garotas encantadas diante de um homem charmoso. A ideia de seguir o seu trajeto foi minha, porque você é bonito e parece ter saído de um livro. Peço desculpas por qualquer incômodo.--Disse Catarina com as bochechas vermelhas de timidez.
                    --Você me achou bonito?--Indagou o homem antes de soltar uma gargalhada homérica, constrangendo a garota. --Nenhuma garota dá bola para mim. Eu sei muito bem que sou feio e esquisito. Que garota acharia atraente um homem de boina e suspensório? 
                    --Para os meus olhos, você é um rapaz bonito. A propósito, eu gosto de boina e de suspensório também. São acessórios charmosos. 
                    --Dentro de seus olhos, existe a espionagem do F.B.I. Até que o F.B.I está com umas espiãs gostosas ultimamente. Eu sei muito bem, porque as espiãs são gostosas. Estratégia de distração. Mas eu não vou me distrair com o seu decote. 
                    --Olha aqui, seu safado!--Exclamou a garota antes de jogar uma sacola de compras no chão, em direção aos pés dele. --A F.B.I está fora de cogitação em minha vida. Eu não sou espiã! Eu até penso em prestar o concurso da ABIN, mas nada além disso. Para de olhar o meu decote! Respeite as mulheres!
                      --Acalme-se, moça. Não discuta com ele, por favor. O médico psiquiatra dele pediu para não contrariar o meu irmão. 
                      --É por isso que ele está do jeito que está! Ninguém pode contrariar as suas loucuras! 
                       --Tome as suas compras e vá para outro lugar com sua amiga.--Disse a irmã dele enquanto estendia a sacola de compras que Catarina arremessou para o chão num acesso de fúria. 
                       --Está bem. Passar bem.--Disse Catarina à irmã dele gentilmente. 
                        --Você deve ter pensado no quanto eu sou ridículo quando me viu com esta boina. --Disse o homem da boina enquanto retirava a sua boina. 
                         --Isto está dentro de sua cabeça. Eu só pensei no quanto você estava charmoso com esta boina.--Respondeu Catarina. --Vamos embora daqui, amiga. Vamos para bem longe dele. 
                          --Peço desculpas pelo meu irmão.
                          --Está tudo bem, moça. Eu só peço que cuide direitinho de seu irmão. Acho que ele está prestes a pegar um ônibus para algum lugar.--Sussurrou Catarina para a irmã do homem de suspensório.
                           --Obrigada.--Respondeu a irmã enquanto dava uma piscada de olho amistosa para Catarina e Sandra. 
                           De volta para a praça de alimentação, as amigas pediram um lanche de pão, presunto e queijo, acompanhado de maionese, batatas fritas e o refrigerante predileto de ambas: Sprite. 
                          --Como o ser humano é negativo! Eu pensando no quanto ele era charmoso enquanto ele achava que eu estava julgando o seu jeito de ser. Ele que se acha ridículo. Quando as pessoas nos olham nos lugares públicos, nos sentimos desconfortáveis ao pensar que os outros estão pensando mal de nós ou observando os nossos defeitos. Mas, os outros talvez não estejam vendo a mancha de pasta de dentes da nossa blusa ou o furo na calça. Os outros não detectam as nossas falhas com a mesma rapidez que nós. Talvez os outros estejam apenas nos olhando inocentemente ou até mesmo nos admirando. Ele era louco de pensar negativamente!
                          --Você tem tendência a atrair loucos. Isto está em seu karma. Tudo culpa daquele seu mapa astral. Seu urano na casa 3 fazendo contato com marte na casa 7, indicando tensão e excentricidade em relacionamentos.  
                          --Ah! Eu gosto do meu mapa astral. Eu tenho a loucura latente dentro de mim. É por isso que as energias dos loucos me chamam. Os relacionamentos podem ser tensos, mas são sempre vivazes com este marte. --Respondeu Catarina antes das amigas caírem na gargalhada.
                         --Todos nós temos a loucura latente em nós. Em alguns, a loucura estoura por algum motivo. Em outros, a loucura fica bem controlada. 
                         --O cérebro humano é tão engraçado e tão obscuro. Quando Deus criou o ser humano, o primeiro ser racional e com o cérebro mais brilhante dentre os animais, o diabo deve ter ficado com inveja e resolveu atormentar o inconsciente da criatura mais bela que Deus havia feito.--Filosofou Catarina.
                        --Uau! Esta conclusão foi profunda, viu?
                        --Quem disse que shopping foi feito só para bater pernas e fazer compras? Quem disse que shopping é um lugar fútil? Podemos sentar na praça de alimentação e conversar a respeito de assuntos profundos e filosóficos. Qualquer lugar é lugar para ser profundo. 
                       --Tem toda razão. Eu amo os nossos altos papos quando nos encontramos no shopping. 
                        --Quando eu era pequena, eu gostava de desenhar um chapéu na cabeça dos homens para diferenciar as figuras masculinas e as femininas que eu desenhava. Eu sempre desenhava saias para as mulheres e boinas para os homens. Eu vi algo bom e belo naquele rapaz. Eu vi uma luz, sabia?
                        --Você e a sua mania de caçar a luz até nas criaturas mais obscuras.
                       --Eu gosto de enxergar a beleza interior das pessoas. Por que eu sou assim?
                    --Por que o seu coração é do tamanho de Júpiter.
                     --É verdade. O meu coração é grande. Eu vejo a vida diferente. Para mim, o sentido da vida é amar. Todas as pessoas possuem um valor, uma dignidade humana e o direito de viver. O direito de amar e ser amado pertence a todos nós. Para mim, a vida não é uma lista de compras, onde somos robôs destinados a ter um diploma, trabalhar, casar e ter filhos. O sentido da vida não é ter honras nem troféus. O sentido da vida é apenas viver. Pode parecer bobo e simplório isso, mas o sentido da vida é só viver. Pode parecer bobo, mas é muito profundo. Tudo o que vive é o nosso próximo e merece respeito. 
                  --Você tem um pensamento muito parecido com o da filosofia zen budista: o sentido da vida é apenas viver. Viver o aqui e o agora. Dizem que somos românticas demais por buscarmos filosofias espirituais e acreditarmos em Deus.
                 --Eu discordo. O romantismo não está na nossa crença em Deus, mas no próprio prazer em viver. Se estivermos erradas e Deus não existir, devemos ser mais românticas ainda. Se não houver nada além dessa vida, então está vida é mais valiosa ainda. 
                 --Dizem que somos emocionais demais. Dizem que somos românticas incorrigíveis. Mas você está certa quando diz que esta vida é valiosa. 
                  --Deve haver um equilíbrio entre razão e emoção para a autêntica lucidez. Emoção demais cega, mas razão demais transforma o ser humano em um psicopata frio e calculista. Bem que Chesterton dizia que o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão. 
                  --Exatamente, amiga. Ele dizia que o louco não é aquele que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo, exceto a razão. Quem perde a empatia é muito mais perigoso do que quem perde a razão.
                  --Estamos com altas filosofias no Shopping hoje. 
                  --Não é contraditório filosofar num shopping?--Indagou Sandra antes de soltar a sua maravilhosa risada. 
                  --Contraditório seria se a gente começasse a falar de socialismo ao saborear um delicioso lanche do MCDonalds. 
                   --A gente já fez isso!--Exclamou Sandra antes de mais umas ondas de gargalhadas deliciosamente contagiosas. Catarina ria até a barriga doer junto de sua amiga.
                   --Já que socialista não pode comer MCDonals, tomar coca-cola e ter um celular moderno, eu decidi não ser mais. Entre ser hipócrita e ser realista, eu prefiro ser realista. E eu não me adapto muito bem a esta moda vegetariana natureba que está tendo por aí. 
                    --Eu não gosto muito de carne vermelha como você, mas um bife suculento de vez em quando cai muito bem. 
                     --Eu até me interesso por filosofias espirituais, como o budismo. Mas não sou radical em nada na minha vida.
                      --Você é esquerda ou direita, afinal?
                      --Eu sou os dois. Você viveria sem o seu braço esquerdo ou sem o seu braço direito por acaso?
                      --Eu também sou os dois. Eu sou politicamente bipolar.
                      --Eu também sou politicamente bipolar.--Afirmou Catarina antes de soltar uma risada. --Eu tenho uma socialista e uma capitalista dentro de mim e admito isto. Eu sou centro. Em cima do muro é o melhor lugar para ficar de vez em quando, pois você consegue ver os dois lados bem melhor do que qualquer um deles muito embora leve pedrada de ambos.
                       --Você falou de modo sensato agora.
                       --Eu tinha um pé no lado esquerdo da força devido às minorias sociais, mas me decepcionei muito com a esquerda. A esquerda é cheia de contradições e hipocrisias. Ela prega o amor aos pobres, mas também gera pobreza e corrupção. Ela prega a libertação de padrões, mas gera outros padrões ainda mais limitantes e esquisitos. Ela prega a empatia, mas não sabe ouvir. Acha que só ela tem o direito de falar. 
                       --Não me diga que você foi para o lado direito da força? As pessoas sensíveis e artísticas estão habitando o lado esquerdo praticamente. Eu não gosto do discurso cafona e conservador da extrema direito, por exemplo. 
                        --Eu também tenho medo da direita radical, assim como tenho medo da esquerda radical. Eu gosto de equilíbrio na vida. Se a gente for conservador demais, a sociedade engessa. Mas, se a gente for progressista demais, o tiro pode sair pela culatra, transformando dissolução de padrões em anarquia. Não gosto de engessar nem de diluir. Política lembra alquimia: solve e coagula. 
                        --Este teu papo é coisa de ascendente em libra.
                        --Tem razão! Dizem que a verdade está acima de todas as opiniões e de todos os partidos. Segundo Eliphas Levi, o mestre dos místicos, o mundo não pode se fixar nem na escravidão nem na anarquia, pois a harmonia resulta da analogia dos contrários. 
                         --Uau! Você está muito profunda hoje!--Exclamou Sandra entre risos.
                        --Quem disse que não dá para falar de política em shopping? Só não dá para criticar o capitalismo nele!
                         --Nesse ponto, eu discordo de você. O olho do furacão é o melhor lugar para visualizar e criticar o furacão. No Shopping, a gente pode observar as qualidades e os defeitos do capitalismo. O capitalismo é muito injusto. 
                         --A vida é injusta. Se não fosse injusta, não existiria o Curso de Direito. Mas, ele reflete a realidade ao menos. Utopias fofinhas são extremamente mais perigosas. 
                         --Mas, os homens socialistas são charmosos. Eu namorei um rapaz socialista que tinha uma inteligência tão charmosa. Minha nossa! A gente pegava fogo!--Exclamou Sandra antes das amigas caírem na gargalhada. 
                         --Inteligência é algo bastante afrodisíaco para mim também. Se o rapaz tiver cabelos compridos, fumar charutos e usar boina com suspensórios, eu posso até mudar de lado político. --Disse Catarina com um largo sorriso no rosto enquanto Sandra colocava a cabeça para trás de tanto dar risada.
                          --Amiga, eu devo dizer que estou mais inclinada para o lado esquerdo da força. 
                          --E eu ando bem inclinada para a direita, mas não vamos discutir por política. Que tal mudar de assunto?
                           --Ótima ideia! Vamos falar de sexo!--Exclamou Sandra antes de soltar uma gargalhada. --Quem disse que só os homens podem falar de sexo? Mulheres também devem conversar sobre este assunto. 
                            Catarina adorava a maneira pela qual o diálogo com a amiga fluía nos mais diversos assuntos. Elas conseguiam falar de moda, política, filosofia e sexo num piscar de olhos. Catarina até hoje não sabe a magia da criatividade que Sandra tem de flutuar como uma borboleta nos assuntos mais diferentes. A capacidade de saltar de um assunto para o outro em segundos era surpreendente. 
                          --Além de boina e suspensório, quais os seus fetiches?--Indagou Sandra antes das amigas caírem na risada.
                          --Namorar em um ambiente repleto de água...
                          --Este teu fetiche é a cara do signo de câncer!
                          --Pois é, é o meu signo...
                          --Estar em um ambiente seguro e romântico com candelabros, almofadas, incensos de aromas leves, plumas e cortinas. A mulher com corset, lingeries e luvas... O homem de suspensório talvez...--Disse Catarina antes das amigas caírem novamente na risada. --E você, amiga? Quais os seus fetiches?
                         --Prefiro não comentar! Mudei de ideia e acho que devemos falar de sexo depois! --Exclamou Sandra com sorriso maroto enquanto erguia o copo descartável cheio de Sprite. --Vamos mudar de assunto de novo. Vamos fazer um brinde à amizade indestrutível de Catarina e Sandra.
                         --Um brinde à amizade verdadeira!--Exclamou Catarina enquanto tocava o seu copo no copo da amiga. 
                         --Um brinde aos homens feios!
                         --Um brinde aos homens estranhos que nos convidam a viajar para outros mundos!--Exclamou Catarina enquanto Sandra gargalhava.
                         --Um brinde às qualidades humanas!--Exclamou Sandra repleta de entusiasmo. 
                         --Um brinde aos nossos defeitos!
                         --A gente poderia estar brindando com taças de cristal repletas de champanha em Paris, mas acho que a gente não seria tão feliz como a gente é...
                         --Tem toda a razão, amiga. Eu te amo muito.--Disse carinhosamente Catarina enquanto erguia o copo descartável repleto de Sprite. 
                         --Eu também te amo, Catarina. 

Conto de Humor Reflexivo escrito por Tatyana Casarino. 

A Série "Histórias de Catarina, a Mística" abordará os seguintes temas:

*Amizade verdadeira;
*Amor;
*Misticismo;
*Tolerância religiosa;
*Amizade entre ateus e místicos;
*Amizades entre pessoas de religiões diferentes;
*Amizades entre pessoas de posições políticas diferentes;
*Desafios de pessoas jovens que seguem princípios espirituais; 


*Principais mensagens:

*O verdadeiro amor e a verdadeira amizade rompem todas as barreiras;
*Às vezes, tudo o que o mundo precisa é de tolerância;
*Muitas vezes, os "defeitos" de uma pessoa são as coisas mais charmosas dela;
*A excentricidade também é normal;
*O sentido da vida é apenas amar e viver...

*Observação: O homem das imagens é o ator Paul Newman, o maior sex simbol dos anos 60. Ele também era dublador e direitor cinematográfico dos Estados Unidos. 

Tatyana Casarino. 

Confiram uma música que tem tudo a ver com a postagem de hoje:

"Todos nós nascemos loucos, pura emoção. Só os fortes permanecem longe da razão." Loucure-Se/Scalene









                            
                    
                        
                
                

2 comentários:

  1. >> Catarina jamais desejou que sua amiga fosse um milímetro diferente do que ela era, pois, mesmo com seus defeitos e desafios, ela não teria a mesma graça se não fosse a sua personalidade sensível, excêntrica e altamente bem humorada. << Coisa boa relação assim, em que a gente quase grita para a outra pessoa: NÃO MUDE, ESTÁ TUDO PERFEITO ASSIM, hehehehe.

    >> Os bonitinhos às vezes são tão sem graça. Mas, tem cada feio bonito por aí. << hahahaha, cada feio bonito, ameiiii.

    >> Amiga, eu simplesmente não posso ver um homem de suspensório. É um acessório tão charmoso que me dá palpitação, tremedeira e falta de ar. <<< hahahaha, cada uma com sua loucura, hahahahhaa.

    >> --Amiga, ele parece pertencer a outra realidade. Vamos ficar aqui paradas, sentadinhas na praça de alimentação. Evite olhar para ele, por favor. Você está vidrada na boina dele.
    --Isto é maravilhoso. Eu também pertenço a outro mundo! Veja só que coincidência! << Eu estou amandooo !!!

    >> Os outros não detectam as nossas falhas com a mesma rapidez que nós. << Muito verdadeira essa frase.

    >> --Você tem tendência a atrair loucos. Isto está em seu karma. Tudo culpa daquele seu mapa astral. Seu urano na casa 3 fazendo contato com marte na casa 7, indicando tensão e excentricidade em relacionamentos. << Essa análise foi ótimaaa, adorei hehehehehe.

    >> --Eu também sou politicamente bipolar.--Afirmou Catarina antes de soltar uma risada. --Eu tenho uma socialista e uma capitalista dentro de mim e admito isto. Eu sou centro. Em cima do muro é o melhor lugar para ficar de vez em quando, pois você consegue ver os dois lados bem melhor do que qualquer um deles muito embora leve pedrada de ambos. << Adorei essa parte. Também sou politicamente bipolar Sandra e Catarina!!!

    >> --Inteligência é algo bastante afrodisíaco para mim também. Se o rapaz tiver cabelos compridos, fumar charutos e usar boina com suspensórios, eu posso até mudar de lado político. --Disse Catarina com um largo sorriso no rosto enquanto Sandra colocava a cabeça para trás de tanto dar risada. << Hahahahahhahaha

    Amei as principais mensagens, são muito visíveis no texto.

    Amiga, coloca esse personagem de boina e suspensório em mais alguma história, bem que ele poderia aparecer quando Catarina menos esperar né? Hehehehehe.

    Showwwww esse conto!

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    1. Olá, Fer! Gratidão pelo carinho e pelo comentário repleto de conteúdo! Como é maravilhoso receber comentários assim! Fico feliz que tenha se divertido com o Conto e refletido! As partes que você destacou são as minhas favoritas também. Grande beijo!

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