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sexta-feira, 7 de julho de 2017

João e o Pé de Feijão (1974).


    Olá, leitores! Aqui é a Tatyana Casarino e hoje eu trago para vocês mais um texto escrito pelo meu amigo escritor Mateus Ernani Heizmann Bulow. Quem não conhece aquela clássica história de João e o Pé de Feijão? A história do garoto humilde que é capaz de trocar uma vaca por feijões encanta inúmeras gerações. Considerado bobo, ingênuo e louco por isso, João acaba provando que seu intento não foi em vão quando descobre a qualidade verdadeiramente mágica daqueles feijões. Diante do pé de feijão gigante que nasce em seu quintal, João descobre um mundo de tesouros e magia guardado por um gigante feroz. 
    É interessante notar que esta história é citada até mesmo na Animação de A Bela e a Fera (Disney, 1991) quando Bela tenta conversar com um camponês sobre o livro que está lendo. Ela diz: "É sobre um pé de feijão, um ouro e..." O camponês, por sua vez, não mostra interesse em conversar sobre literatura e, ao invés de manter a conversa com Bela, dirige-se a outra personagem dizendo: "Maria, as baguetes!" Tal cena é uma das mais divertidas da Animação, já que demonstra o caráter intelectual e diferenciado de Bela diante dos outros moradores da aldeia francesa onde mora.
    Sem mais delongas, colocarei abaixo o texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bulow. Trata-se de uma análise a respeito de uma Animação japonesa de 1974 sobre João e o Pé de Feijão. Fiquem à vontade para escalar o pé de feijão e tenham uma ótima aventura, ou melhor, uma ótima leitura hehehe!

João e o Pé de Feijão (1974).



“João?... João! Tá na hora de levantar, seu preguiçoso! Já são sete horas! Tem muito trabalho pra fazer, precisa tirar o leite da vaca se quiser tomar café da manhã, meu jovem...”.

                Com esse chamado matinal da mãe do protagonista começa essa animação de 1974, originalmente chamada Jakku to Mame no Ki, realizada por um estúdio chamado Nippon Herald Films, em parceria com a Group TAC. Chega a ser espantosa a origem desse filme, porque o traço não se parece com uma animação japonesa, ou ao menos com o que estamos acostumados a ver como um “legítimo” desenho da Terra do Sol Nascente.
                Apesar de baseada em um conto de fadas com um enredo bem simples, essa produção possui seus próprios méritos. Ao menos inicialmente o roteiro parece igual: menino do interior precisa vender a vaca após uma ordem de sua mãe, e no caminho ele troca a vaca por “feijões mágicos”, para então levar uma bronca e descobrir um enorme pé de feijão no quintal. No entanto, ao vermos uma ratinha em roupas humanas descendo esse mesmo pé de feijão, podemos perceber que estamos diante de uma adaptação diferente...
                Acompanhado pela mesma ratinha e seu cachorro Crosby, João escala o pé de feijão e encontra a princesa Margaret do Reino das Nuvens, uma jovem feliz por estar prestes a se casar com um príncipe chamado Tulipa. No entanto, o tal “príncipe” é um gigante terrível! Não demora muito até o menino descobrir um plano concebido por Madame Hécuba, a feiticeira mãe de Tulipa (e que mais parece uma cruza da Malévola com a Yzma), após esta enfeitiçar o Reino das Nuvens e a princesa, fazendo-a acreditar que o horrível gigante se trata de um príncipe e transformar os serventes em ratos.
                Vendo por esse ângulo, em nada se parece com o João e o pé de feijão aos quais nos acostumamos, não é mesmo? Devido ao conteúdo “sombrio” e “assustador”, essa produção é vista com receio por alguns pais em busca de filmes para seus filhos, e a própria recepção fria no ocidente não ajudou muito. Entretanto, o filme conta com alguns admiradores, muitos deles nostálgicos que o assistiram quando crianças, ou os adeptos de animações experimentais e “malucas”, até porque os momentos esquisitos nesse filme são frequentes.
                Confesso que sou suspeito para fazer essa análise, pois essa animação de 1974 foi o primeiro contato que tive com o conto original de João e o Pé de Feijão, quando eu tinha seis ou sete anos. Entretanto, a passagem do tempo deixa nosso espírito crítico mais aguçado, e sempre é bom rever memórias da infância para observarmos onde estavam as falhas em um filme que considerávamos incrível durante a infância. Sem mais delongas, vamos escalar esse pé de feijão rumo à análise!


Pontos positivos:


1 – Antes do herói, nós vemos uma criança.

                Os trechos iniciais do filme são focados no dia a dia de João, e logo no início temos cenas do menino pescando, tentando apanhar uma lebre e brincando com um graveto enfiado na água, fazendo um rastro no riacho. Apesar de a subida no pé de feijão levar quase vinte minutos, o trecho inicial é bem aproveitado ao mostrar uma típica manhã no sítio onde o protagonista vive com sua mãe. Pra quem viveu no interior, ou ao menos visita o interior com alguma frequência, é fácil se identificar com as cenas.
                O trecho da conversa com o “vendedor de milagres” na troca da vaca pelos feijões é divertido, com pérolas do tipo “eu posso ser camponês, mas não sou burro!”, seguido da paixão do protagonista pela música. A cena seguinte, onde a mãe de João o castiga batendo com a vassoura gerou alguma controvérsia, mas se nós lembrarmos que a produção é dos anos setenta, vale lembrar que uma cena dessas era considerada leve para os padrões atuais...
                Como o protagonista é “um simples camponês e não conhece nada do mundo”, em suas próprias palavras, ele não pode enfrentar o gigante e a bruxa usando a força, restando-lhe usar sua esperteza e sua malandragem em diversas cenas. Um dos melhores exemplos está na primeira descida do pé de feijão, onde ele pula em um poço, se esconde em uma borda saliente e berra bem alto, para o gigante acreditar que ele caiu e morreu, a fim de encerrar a perseguição. Outra cena que mostra a perspicácia do menino ocorre na sala do tesouro, onde ele imita a voz da harpa falante para enganar Tulipa.
                Talvez o ponto mais forte do João dessa adaptação esteja em sua fraqueza, ao se recusar a arriscar a própria pele para salvar a princesa, preferindo fugir com parte do tesouro. No entanto, sua consciência fala mais alto, e após descobrir como desfazer o feitiço ele volta para o resgate, utilizando mais uma vez sua malandragem contra a força bruta no confronto final contra o gigante.

2 – Crosby, o fiel escudeiro.

                Outra diferença em comparação com o conto de fadas original está na presença de um coadjuvante quase tão importante quanto o protagonista. O velho cachorro dorminhoco já deixa à mostra sua natureza sonhadora logo no início do filme, ao sonhar com cavaleiros nas nuvens. Sua coleira ostenta um grande escudo com uma cruz, dando a entender que Crosby participou de alguma expedição, ou então era mascote de alguma ordem de cavaleiros, antes de vir parar na fazenda onde João vive com sua mãe.
                A comparação mais óbvia a se fazer com Crosby e o seu jeitão de herói galante e trapalhão sem dúvida é Dom Quixote. Assim como o alucinado Cavaleiro da Triste Figura, Crosby age de forma educada diante de uma dama, qualquer que seja sua espécie, e é o mais entusiasmado com a ideia de lutar pelo Reino das Nuvens, chegando a colocar uma armadura adaptada para cães.
                Na segunda metade do filme, o cão sonhador assume um papel curioso, nesse caso o de “consciência” para o protagonista. Isso ocorre após ele cantar para a lua ao invés de uivar, sendo isto interpretado por João como se fosse um sinal de que deveria ter ficado para ajudar ao invés de fugir com o ouro e a galinha dourada.

3 – Trilha sonora excelente.

                Boa parte das músicas que permeiam a história do início ao fim é cortesia de três pessoas: Takashi Miki, Shun'ichi Tokura e Tadao Inōe. De todas elas, apenas a primeira música foi removida, devido à dificuldade de tradução em japonês. É possível perceber uma nítida influência do rock daquela época, bem como de baladas mais românticas e lentas, chegando a parecer com os Beatles em algumas partes.
                Apesar do repertório variado, boa parte da trilha sonora é composta de variações do tema adotado logo no início do filme, quando João acorda e sai para o serviço. No entanto, isto não chega a incomodar, pois as variações são adequadas com as cenas correspondentes, soando mais rápidas ou mais melancólicas de acordo com a situação.
                Três músicas são lembradas com frequência pelos fãs dessa adaptação. A primeira delas é o dueto na cena onde o pé de feijão cresce a toda velocidade rumo ao céu; a segunda é a música “no one’s happier than I” (“ninguém é mais feliz que eu”), cantada por Margaret, logo após sua aparição; a última, e talvez a mais bizarra, é a música cantada na cena do casamento entre Tulipa e a princesa, cuja estranheza é realçada pela presença de vários bonecos de papel vivos na igreja (!).

4 – Sobre a impossibilidade de ter tudo o que desejamos.

                Apesar de ser mais lembrada pelo conteúdo esquisito do que outros aspectos, deve se reconhecer que existe um ponto digno de nota nessa animação, algo que raramente é tratado com o devido cuidado em vários desenhos, especialmente os mais modernos. Falo da necessidade de reconhecer que nem tudo será como nós desejamos, e devemos seguir em frente, de uma forma ou outra.
                O exemplo mais claro dessa filosofia ocorre perto do final, quando João fica frustrado ao saber que Margaret não poderia descer o pé de feijão para viver com ele, porque teria de assumir o trono do Reino das Nuvens. Inicialmente o menino fica chateado e pergunta se na verdade ela não gosta dele (toda criança já usou essa chantagem...), para então reconhecer que eles ainda poderiam ser amigos.
                As duas músicas do final do filme reforçam essa ideia de que a vida continua após a perda e a distância, e a última trilha sonora é minha preferida entre todas nessa animação, com seus acordes inicialmente melancólicos se tornando esperançosos no final. É o melhor lembrete para essa mensagem de seguir em frente, mesmo com a tristeza da perda e da impossibilidade de obtermos o que mais queremos.

5 – Facilidade de se encontrar o filme inteiro na internet.

                É surpreendente a quantidade de traduções que este filme teve ao redor do mundo, apesar da recepção baixa em sua época, e somente no Youtube é possível encontrar duas traduções em português brasileiro, um sem número de traduções em inglês, duas versões em japonês legendadas em inglês... Existem até mesmo adaptações em russo, holandês, alemão, francês e italiano, e isso é espantoso, afinal esse filme foi um fracasso de bilheteria na época que foi lançado.
                Alguns lançamentos em DVD para a dublagem original em inglês foram realizados, entretanto, existe um “pequeno” obstáculo na figura do preço, cotado em 299,00 dólares (o que hoje daria em torno de R$ 897). Convém lembrar que os vídeos espalhados na internet nem sempre estão em bom estado, com erros de mixagem de som e cores opacas, mas as duas versões brasileiras estão em bom estado, felizmente.

Pontos negativos:




1 – Furos de roteiro estranhos.

                Chega a ser esquisito falar em incongruências de roteiro em uma animação infantil, entretanto elas são bizarras ao ponto de chamar a atenção dos espectadores mais distraídos. A maior parte dos furos ocorre a partir da chegada de João ao Reino das Nuvens, e o primeiro deles aparece na primeira aparição de Tulipa: o gigante monstruoso é capaz de farejar o menino humano enquanto ele está dentro de uma panela, em outro recinto do castelo, mas não consegue sentir seu cheiro quando ele está por perto, a poucos metros de distância.
                Existem outras cenas bizarras espalhadas pelo longa, mas nenhuma deles se iguala (atenção: spoilers à frente!) à revelação de que Madame Hécuba é um robô. Não existe forma alguma de se explicar essa cena, embora haja um “palpite” em uma cena anterior, onde Tulipa brinca com uma boneca de corda parecida com sua mãe. Outro momento estranho ocorre quando Crosby possui um número musical e canta com uma voz grossa e triste; até então o animal não falou em nenhum momento, e tal cena surpreende o protagonista (e nós!).

2 – Animação destoante em diversas cenas.

                Como costuma ocorrer com as animações anteriores aos anos noventa, existe uma grande disparidade em relação aos personagens em movimento e os cenários fixos, mas ocorre algo ainda mais estranho entre os próprios personagens e seus traços. Um dos exemplos é a própria Madame Hécuba, cujas linhas agressivas e mais grossas são percebidas à distância, mesmo por um espectador distraído; seus movimentos também são rígidos, menos fluidos em comparação com outros personagens.
                O caso mais chamativo é o de Margaret, cujo traço em forma de anime destoa muito em comparação com os outros personagens; apenas seus pais, que aparecem em uma pintura, possuem desenho similar ao dela. A razão para a princesa enfeitiçada ser retratada em um traço diferente talvez seja reconhecer o filme como um anime, ou porque os animadores acreditavam que uma jovem com os mesmos traços cartunizados dos outros personagens não pareceria atraente.

3 – Nenhuma música foi traduzida para o português.

                Aqui o problema está na dublagem, e não propriamente no filme. Muitas das músicas possuem letras, e a ausência de tradução para o português é frustrante por impedir a compreensão de algumas cenas e também algumas pérolas impagáveis: em uma das músicas, por exemplo, é dito “you’re so ugly that it should be against the law!” (“você é tão feio que deveria ser contra a lei!”).
                Uma das músicas cuja ausência de tradução se mostrou danosa ao filme é a “Are you Happy?” (“Você está Feliz?”): durante um trecho dessa canção é possível ouvir Madame Hécuba murmurando algo, e suas palavras não foram traduzidas para o português. Embora seja possível identificar as intenções por trás de suas palavras, não deixa de ser frustrante para quem não é muito bom no inglês.

Curiosidades adicionais:
-Foi o primeiro trabalho de Gisaburo Sugii como diretor geral, após seis filmes trabalhando como diretor do setor de animação. Vinte anos mais tarde, ele dirigiria o filme animado do Street Fighter II.
-A dublagem original japonesa destoa em vários aspectos da dublagem americana, da qual deriva a versão brasileira. Na versão original japonesa, João possui uma voz mais grave, dando a entender que está na pré-adolescência; a harpa falante, que ganhou uma voz solene e arrogante em inglês e português, possuía uma entonação mais feminina e estridente.
-No Brasil existem duas versões dubladas, e na versão mais recente a cena do castigo de João com as vassouradas no traseiro foi cortada. As duas versões brasileiras disponíveis no Youtube adotam a dublagem mais antiga.
-Madame Hécuba era chamada de Madame Noir (“escuro”, em francês) no Japão.
-Na versão alemã, os guinchos dos serventes transformados em ratos foram traduzidos para a linguagem local. No entanto, apenas Crosby consegue entendê-los.

Aqui está a primeira música, da qual boa parte da trilha sonora é derivada:



Está é a última música; reparem na semelhança:



Mateus Ernani Heizmann Bulow


2 comentários:

  1. Achei perfeito esse post!!! Parabéns ao Mateus!!!

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    1. Obrigada pelo comentário, amiga! Compartilharei o elogio carinhoso e sincero com o autor da postagem. Tenho certeza que o Mateus ficará feliz com o seu comentário assim como eu fiquei. Abraço!

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