O Cantinho de Tatyana Casarino. Aqui você encontrará Textos diversos e Poesias simples com a medida do coração.









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domingo, 26 de outubro de 2014

Saudade da infância


Oh! que saudades que tenho 
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!


Casimiro de Abreu (1839-1860)



                        



        Hoje eu amanheci com síndrome de Casimiro de Abreu. Na verdade, foi quando eu olhei para aquele garoto andando de bicicleta no pátio do meu edifício que eu fique assim tão nostálgica. Eu andava de bicicleta exatamente como aquele garoto: livre como uma borboleta. Lembrei dos meus oitos anos e da maneira livre e divertida com a qual eu andava de bicicleta.
      Que saudade do tempo em que o amor não passava de um conto de fadas, a profissão era apenas uma brincadeira daquilo que eu queria ser quando crescer e a família era papai e mamãe.
        Hoje o amor é sempre um conto dramático, a profissão é aquela que demanda estresse e suor e a família é aquela instituição que a sociedade me obriga a formar.
         Saudade de sonhar que tudo é belo e eterno. Saudade da minha pureza. Saudade da minha inocência. Saudade até da minha ignorância. Hoje eu sei que nada é tão belo quanto parece e que tudo é mortal. Hoje tenho conhecimento, mas pago o preço da melancolia por saber dos nossos males.

                 

          
             Hoje eu me encontrei dividida entre a acidez do mundo adulto e a doçura exacerbado do mundo infantil. Se eu optar pela vida adulta e simplesmente aceitar esta vida cinza que a sociedade prega, serei mais um adulto infeliz como tantos outros que são meros escravos do sistema, pois abandonaram a alma questionadora e criativa da criança.
            Não obstante, se eu optar por fugir da vida adulta, encontrarei o retrocesso ou uma depressão infantil. Então, hoje estou dividida entre o que é e o que eu pensei que fosse na minha imaginação.
             O que dói em mim não é ser adulta. É legal crescer e ser sua própria heroína no conto da vida, lutando contra os "dragões" pessoais e sociais. É animador tornar-se mulher e ser do tamanho de uma princesa.
              O que dói é saber que a vida é bem diferente daquilo que se pensava quando se tinha oito anos de idade. O que dói é saber que a vida é sempre uma corda bamba que lhe exige um equilíbrio absurdo, e isto é muito mais difícil do que equilibrar-se na bicicleta.
             Qualquer ato impensado, qualquer palavra mal proferida, qualquer comportamento inadequado e qualquer pensamento indevido quando se é adulto podem derrubar você definitivamente.
              Eu sei que se eu cair na vida, não será fácil me reerguer como era quando eu caía da bicicleta. A mamãe não vai estar lá para passar remédio nos meus joelhos ralados e assoprar o machucado docemente.
               Eu vou cair sozinha e a vida será dura comigo, porque a vida é dura para todos. O amor não vem mais com a garantia de "felizes para sempre" como aparecia nos contos de fadas, e isto me apavora. O amor está me causando medo ao invés de sonho e eu não sei como explicar.

                      

              
              Este jogo de atração, essa dicotomia entre certo e errado, esta divisão entre adequado e inadequado e a disputa entre razão e emoção deixam a minha alma inexplicavelmente triste. É como se a abóbora da Cinderela tivesse virado um abacaxi para ser descascado.
                 A profissão não é mais a brincadeira daquilo que eu quero ser quando eu crescer, mas um dever. Devo agir com seriedade e responsabilidade e não posso mais mostrar fraqueza. Tenho que vender o meu peixe e passar uma imagem de inabalável, escondendo as minhas lágrimas infantis no fundo do baú.
                 E a família não é mais papai e mamãe, mas sou eu a nova mamãe que devo procurar um papai para meus futuros filhos. E eu não sei como ser mãe, eu só sei ser filha. É fácil ser filha, ter seu quarto de solteira, roupa, comida e ambiente limpo por outras pessoas. É difícil ser a líder de uma nova casa.
                     

                
                  Quando somos jovens, somos rebeldes, porque não gostamos de obedecer as regras que são impostas a nós. Tolos somos quando somos jovens por não sabermos o quão difícil é criar novas regras e mandar a partir delas. Liberdade traz dever, ninguém vive na pura anarquia.
                  A verdade é que tudo me impressiona. É como se eu fosse uma criança que recentemente acordou adulta e apavorada com tudo. Pavor é o que me define diante do mundo do jeito que ele é. E é este espanto presente tanto na alma das crianças quanto na dos filósofos que constitui o meu ser.
                  Saudade do tempo em que o amor não era um abacaxi e que a profissão não era o peixe que eu devo vender. Saudade de depender de papai e mamãe. Saudade de correr para a cama da mamãe quando eu tivesse um pesadelo. Saudade de quando a vida se resumia em estudar, brincar de boneca, jogar vídeo-game e andar de bicicleta.
                    Saudade de assistir desenho animado de manhã. Saudade do acampamento que o papai  fazia com cabanas, barracas e colchões dentro de casa nos domingos chuvosos. Saudade de poder chorar sem pudor e ter a desculpa de ser criança. Saudade de não ter tensão pré-menstrual todos os meses.
                    

                  
                  Saudade de sonhar e achar que tudo é possível. Saudade de ser tudo aquilo que eu quisesse sem me preocupar com o dia de amanhã. Saudade de quando eu não precisava me equilibrar entre a virtude e o vício, entre a alegria e a tristeza, entre o bem e o mal, entre o sim e o não nessa corda bamba que é o caminho do meio. Saudade de quando o único equilíbrio que eu precisava ter era aquele para me manter andando de bicicleta.


Texto escrito por Tatyana Casarino.
                

Um comentário:

  1. Infância era a época onde uma obra abandonada era um castelo a ser explorado, uma escavadeira virava um dragão assustador, uma perna de mesa quebrada virava uma espada mágica bem afiada, um lençol no varal era um fantasma, e montinhos de terra, areia e brita eram montanhas íngremes a serem desbravadas.

    A propósito, adorei a metáfora do abacaxi, consegui até imaginar o Bob Esponja aparecendo diante de uma estupefada Cinderela, hahaha!

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