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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O lamentável preconceito entre ateus e religiosos

      O lamentável preconceito entre ateus e religiosos


 Ciência e fé sempre foram antagônicas e conflitantes no contexto da sociedade em que vivemos há muito tempo. Há os que confiam mais na ciência e se tornam céticos, e há os que entregam suas vidas à devoção de sua fé. E também há ainda aqueles que, embora tenham crenças íntimas e peculiares, conseguem conciliar conhecimento científico e devoção espiritual, fé e razão, equilibrando-se na "corda bamba" de uma vida intelectual diferente.
        Longe de querer discutir de forma profunda quem carrega mais legitimidade e valor, se é a fé ou se é a razão, esta postagem do blog vai falar de um assunto muito delicado e que me entristece muito: o preconceito entre ateus e religiosos.
        Todas as formas de preconceito me entristecem bastante, e é por isso que eu me sinto muito motivada a escrever trabalhos dos Direitos humanos das minorias sócias (grupos que, independentemente da quantidade de pessoas, são chamados de "minorias" sociais pelas características que o diferem do "padrão" social e que os leva à exclusão e ao preconceito como ocorre com afrodescendentes, índios, homossexuais, pessoas obesas, pessoas com dificuldade econômica, idosos, pessoas com alguma limitação física ou psíquica e etc).
                

          Para os meus olhos, todo ser humano é igual. A morte iguala todos nós, e isto é fato. A morte é a única verdade que podemos crer assim como tudo que a circunda: a igualdade, a falta de importância dos bens materiais diante da vida, a falta de importância do ego, da vaidade e do sucesso e o valor do amor, pois só a forma como amamos os outros importará depois. Se fomos amáveis, deixaremos, ao menos, saudade e bons legados. Se não éramos amáveis, não deixaremos nada.
               

           Se a morte igual a todos, por que a vida em sociedade continua a excluir, a oprimir, a marginalizar, a sufocar, a ridicularizar, a julgar, a criticar, a ferir e a corromper as pessoas? Não deveria a vida em sociedade respeitar a todo ser humano com sua dignidade, já que todos somos mortais?
        A Constituição Federal fixa como um dos grandes objetivos da República Federativa do Brasil a construção de uma sociedade livre, justa e solidária:


"Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
 III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação."

Na bíblia, também consta que Deus não faz acepção de pessoas, e que os homens não deverão julgar os outros pela aparência.

 Infelizmente, muitos continuam a desrespeitar a Constituição, condutas de corrupção e preconceito ocorrem em nosso país e, muitas vezes, as pessoas já se acostumaram a conviver com esse males e nem se revoltam mais, como se as mazelas fossem "normais" e como se não houvesse mais esperança.

Em todo esse contexto, se encaixa o trecho da música de Renato Russo retratado acima.

 Bem, mas se fôssemos discutir os conflitos de todas as minorias sociais e de tudo que ocorre em nosso país, não conseguiria escrever uma postagem de blog, mas um longo livro.
   Vou falar de uma minoria social peculiar e que sofre muito preconceito (principalmente, em nosso país que tem um histórico cristão e costumes religiosos tradicionais), mas também muitas vezes também é a própria autora de condutas de arrogância e de preconceito. Esta é a minoria social composta por ateus e agnósticos.
     Em meus estudos de Direitos humanos e democráticos, ao ler o livro do sociólogo francês Alain Touraine "O que é democracia?", percebi que os grupos de isolamento social por sofrerem discriminação social, muitas vezes, se fecham entre si e adotam uma postura de revolta e violência, devolvendo  à sociedade o preconceito que recebem e, ao invés, de lutarem por união e igualdade, encarnam o ciclo vicioso do preconceito. É a lei da física: toda ação possui sua reação. E a violência e o preconceito só geram mais violência e preconceito numa luta de egos e de arrogância.
      Um exemplo disto é o feminismo radical. Ao invés de as mulheres lutarem contra o machismo e expressarem todo seu valor e dignidade humana, muitas se revoltam e exageram nesse sentimento, criando noções radicais de dominação e de desejo de vingança contra o sistema patriarcal em uma luta contra o homem. Muitas se masculinizam e têm vergonha de serem femininas e delicadas, pois acham que assim perderão sua credibilidade intelectual, e acabam por cometer os mesmos erros do grupo antagônico que tanto elas criticam--o machismo.  
   Sendo assim, mergulham no abismo criado por elas próprias ao invés te terem orgulho de sua dignidade, de seu corpo, de sua personalidade. As mulheres deveriam pensar: "Sim, eu sou mulher, eu sou mais delicada, eu sou feminina e eu posso ser tão inteligente e competente como qualquer pessoa e como qualquer homem".
      

    Homens e mulheres apesar de diferenças físicas e psíquicas são seres humanos e têm o mesmo valor! Nenhum gênero é mais importante que o outro! O mundo precisa de homens e mulheres assim como precisa do dia e da noite! Vamos nos unir aos seres humanos e viver em harmonia com os homens agindo pelo bem da sociedade e fazendo o melhor que podemos fazer. Homens e mulheres unidos em virtudes pela paz e pela dignidade humana.


      Outra grupo de minoria social que sofre preconceito e ao invés de lutar por igualdade e harmonia, se fecha em si mesmo orgulhoso e devolve o preconceito com mais preconceito e até arrogância, muitas vezes, são os ateus e os agnósticos.
      Não podemos generalizar, é claro, mas muitos deles, ao invés de lutaram de modo inteligente e justo por seus direitos, atacam os religiosos e acabam se tornando tão "fervorosos" em seu ateísmo que acabam ficando, paradoxalmente, parecidos com aquilo que tanto criticam: a religião fervorosa. Eis o paradoxo de nossos tempo: o excesso de feminismo se assemelha ao "machismo" e o ateísmo fervoroso fica com aparência de "religião". Confuso e contraditório, não é?

   Eu fico indignada com qualquer tipo de preconceito. Eu fico triste quando ouço um religioso julgar um ateu equivocadamente: "Nossa, aquele lá não crê em Deus! Que horror ele não ter Deus no coração, não deve ser boa pessoa." Esta frase é completamente preconceituosa e lamentável, porque caráter não tem nada a ver com religião. Há pessoas religiosas boas e ruins, há ateus bons e ruins, há agnósticos bons e ruins e assim por diante.
    Não é necessário que haja crença em Deus para a existência de uma conduta virtuosa e bondosa. Não é necessário temer um castigo divino para que não se pratique um mal. Se isto fosse necessário, nosso caráter humano, independentemente de fé, seria duvidoso.
     Como dizia Albert Einstein(que tinha sua fé peculiar, acreditava que Deus estava nas forças do universo) : "Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível."
        
  É de Albert Einstein outra frase interessante também: "A ciência sem religião é manca e a religião sem a ciência é cega".

   É evidente que caráter e virtude são independentes de fé. Aristóteles que escreveu Ética a Nicômaco afirmava que a justiça deve ser a base da sociedade.
   Embora eu seja uma mulher de fé e minhas crenças espirituais influenciem muito a minha conduta, além de Deus, eu creio na virtude, e eu escolhi o caminho da virtude embora tenha vícios a lapidar não por uma questão de fé, mas por uma questão de princípio moral humano: eu respeito o ser humano, porque também quero ser respeitada.
    Eu creio num mundo melhor e meus atos são o reflexo do que eu quero ver no mundo. Sem hipocrisia, se eu quero um mundo mais honesto, eu primeiramente devo ser honesta, independentemente se os políticos são corruptos ou se a maioria das pessoas ao meu redor não é honesta.
    Eu acredito que a justiça é a base da sociedade, e a virtude que eu quero ver no mundo tem que nascer primeiro em mim.
  
   Eu gosto muito dos enunciados do filósofo Kant muito discutidos no curso de Direito:
  
  "Age como se a máxima da tua ação fosse para ser transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza."
 

  "Age de tal forma que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como meio".

  A primeira frase diz respeito a agir de forma que sua atitude possa ser moral de forma universal e aplicável para todas as situações. Exemplo: É errado estacionar na vaga de estacionamento especial. Isto sempre será errado, não importa se eu ficarei 5 minutinhos ou 5 horas no estabelecimento. Eu não desejo que as pessoas estacionem em vagas especiais, pois se a lei for desrespeitada, a sociedade vira um caos. Logo, eu não posso fazer uma "brecha" na lei para mim só pelos meus "5 minutinhos"

 Já a segunda frase fala sobre o valor do ser humano. É preciso enxergar o ser humano como um fim em si mesmo e não como um meio para atingir objetivos. Jamais "usar" um ser humano para atingir benefícios.

  Infelizmente, muita gente pensa que fé e caráter são unidos, o que não é verdade. Cada religião tem sua própria moral, mas não fazer parte de nenhuma não significa ausência de moral ou de virtudes.
   
   Eu admiro e respeito os ateus e agnósticos, pois, muitas vezes, eles são melhores que muitos religiosos. Quando eles fazem o bem, é devido ao bem ser inato a eles como os princípios de virtude dentro deles e não por seguirem a moral de uma determinada uma religião.

   Porém, muitas vezes, eles são preconceituosos e arrogantes. Muitos dizem que as pessoas que creem em Deus são menos inteligentes ou fracas. Que quem precisa acreditar em vida após a morte ou crer em Deus para se reerguer é fraco. Todas essas afirmações não passam de falácias sem credibilidade.
  Há pessoas de fé fortes e há pessoas céticas fortes. Ao contrário do que dizem, não é que "pessoas de fé precisam de Deus para se apoiar", mas crer nele as deixam mais confiantes, mas são nelas mesmas e em sua luz interior que elas se apoiam. Além disso, como diz  o filósofo Epicuro: "A morte não é nada para nós". Segundo Epicuro, se a morte é o fim das sensações, ela não poder ser dolorosa fisicamente, e se ela é o fim da consciência não pode haver dor emocional. Logo, não há razão em considerar a morte algo terrível.
   E, é preciso ressaltar que a escolha por crer em vida após a morte não é para aliviar o medo da morte, o qual é impossível de ser totalmente aliviado, essa crença é apenas o reflexo da crença no mundo astral, o mundo das almas e onde essas retornarão ( ou seria o"mundo espiritual" aquele mundo das ideias que Platão afirmava, o verdadeiro mundo do qual somos apenas reflexos?)
 
  
  
   Assim como caráter não tem nada a ver com religião, inteligência não tem nada a ver com ceticismo. Se você for analisar a história da humanidade, tanto ateus quanto religiosos tiveram gênios ímpares.
Exemplos: Nietzsche e Freud eram ateus e geniais, assim como Albert
Einstein e Friedrich Gauss eram pessoas geniais e acreditavam em Deus.

    Genialidade não é uma questão religiosa. Há mentes brilhantes que convivem com fé e inteligência e há mentes céticas brilhantes também.

          
     Eu conheço pessoas inteligentes e de bom caráter nos mais diversos grupos sociais. Desde o ensino fundamental, tive colegas agnósticos e ateus geniais, e também conheci espíritas, evangélicos, católicos e pessoas com fé inteligentíssimas também.  Caráter não tem a ver com fé, e inteligência também não tem a ver com a fé ou com a falta dela.  


   Há algum tempo, ateus e agnósticos fazem campanhas bem originais, e algumas bem irônicas e agressivas.

Vejam algumas campanhas:
 

Esse outdoor não é, para mim, agressivo embora tenha uma pitada de ironia aí, principalmente pela frase estar sobre a gravura de um céu. Mas, expressa uma realidade: Você é bom sem Deus? Milhões são. Bondade e caráter não precisam estar vinculados a qualquer tipo de moral religiosa. Há ateus e agnósticos bons. As pessoas precisam parar com o preconceito de que eles são pessoas "sem Deus no coração" ou pessoas más. Muitos até sofrem exclusão social ou escondem seu ateísmo por terem medo de críticas sociais, o que é lamentável.

Entretanto, vejam o quanto é ridícula, absurda e arrogante a frase a seguir:

 
"Adultos com amigos imaginários são burros/estúpidos". Além disso, há símbolos religiosos sendo desrespeitados e indo para a lixeira. Se para um cético, anjos, santos e Deus são simplesmente "amigos imaginários", para muitos, eles representam uma realidade transcendental, que não pode ser vista, mas sentida (assim como os sentimentos não podem ser vistos, apenas sentidos). A fé merece respeito e as religiões, bem como seus símbolos também.

  Está mais do que evidente que inteligência não tem nada a ver com a fé ou com a falta dela, e que crer no invisível não o torna nem genial e nem estúpido. Ter fé não o torna pior ou melhor que ninguém. A maior estupidez que existe, para mim, é o preconceito.

A frase da gravura preconceituosa para mim é triste e desnecessária. Se os ateus e agnósticos querem respeito, não é desrespeitando as crenças dos outros que eles vão conseguir. Se eles querem tolerância, então que sejam tolerantes também.
 Sem querer propagar qualquer mensagem moralista com viés religioso, eu defendo, em primeiro lugar, a ética. E é por isso que escolho citar uma expressão filosófica (já comentada na postagem) e não religiosa para defender o respeito, a dignidade humana e a moral:
 
"Age como se a máxima da tua ação fosse para ser transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza."

     Se o grupo de ateísmo quer respeito, eles deveriam ter atitudes a favor do respeito. Já pensou se o desrespeito e a arrogância de afirmar que pessoas que creem são estúpidas se tornassem universais? Eles que não gostam de opressão e de arrogância não deveriam agir assim. Muitas religiões são arrogantes em seus dogmas e desrespeitam os ateus, o que é errado, mas eles não precisam sair atirando pedras em todos, porque se revoltam com isso.

    É preciso tomar cuidado para não considerar geniais apenas aqueles que pensam como nós e para não chamar de estúpidos apenas aqueles que são diferentes. É preciso reconhecer a genialidade que há nas mentes que discordamos sejam elas ateístas ou com fé. Há pessoas inteligentes com fé e há pessoas céticas inteligentes também.
    A frase preconceituosa "Adultos com amigos imaginários são burros/estúpidos" não passa de uma violência verbal sem fundamento.
 
  

Vamos nos unir pela harmonia e pelo bem-estar de uma sociedade livre e justa. A liberdade de crer em algo ou de não crer em nada é um direito de todos nós. LIBERDADE é um direito fundamental!!!

A Declaração universal dos direitos humanos diz:
 
Art. XVIII
 
Toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.


 
 Se você é ateu, agnóstico ou religioso, lembre-se de que a liberdade religiosa é um direito humano. Assim como há a liberdade de pensamento para não crer em absolutamente nada, há a liberdade religiosa para se crer no que quiser. Religião ou falta dela não torna ninguém um ser humano pior ou melhor.
 Além disso:
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
— Artigo 1º Declaração Universal dos Direitos do Homem

 Se você crê em Deus e no mundo espiritual, lembre-se que além da liberdade religiosa ser um direito humano, não se sinta ofendido se suas crenças forem subestimadas ou se a realidade em que você crê é chamada de "ilusão de amigos imaginários". Não se revolte e nem sinta qualquer sentimento ruim com isso, apenas lembre-se dos ensinamentos de Cristo:

Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros.Romanos 12:10

Abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis.Romanos 12:14

Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.Romanos 12:21


Texto escrito por Tatyana Casarino, estudante de Direito, poeta, espiritualista e que acredita numa sociedade mais fraterna.

  

 

2 comentários:

  1. "Se Deus nao existisse, tampouco existiriam ateus" - Chesterton.

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  2. A frase combinou perfeitamente com a postagem! Além disso, adorei ter citado Chesterton,, um gênio que tinha múltiplos talentos.

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