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segunda-feira, 9 de julho de 2012

O paradoxo da rebeldia contemporânea


Começo esse post com uma simples perguntas, caro leitor:
o que é ser rebelde hoje?

  Quando se lê ou se ouve a palavra "rebeldia", logo vem à mente o conceito clássico de rebelde: aquele ser desobediente, desleixado, transgressor de normas, inadequado e excêntrico. Além disso, vem à mente a imagem de alguém que usa roupas incomuns e que faz apologia ao lema famoso: "sexo, drogas e rock and roll". Mas, será que esse esteriótipo fantasiado de Woodstock tão divulgado de rebelde representa realmente a essência pura da rebeldia?
   Segundo o dicionário "Melhoramentos", o adjetivo "rebelde" significa aquele que se revolta contra a autoridade ou aquele que é indisciplinado e teimoso. Já a palavra rebeldia significa oposição ou teimosia.
  A partir do conceito propiciado pelo dicionário, pode-se extrair a seguinte ideia: rebelde é aquele que segue o oposto daquilo que os outros seguem. Rebeldia está vinculada fortemente à oposição.
 Rebelde é aquele que se opõe ao "status quo" social, almejando um modo diferente de se viver. Em simples palavras, pode-se dizer que ter rebeldia é querer nadar contra a corrente. Então, se todos optam por seguir um determinado estilo de vida ou uma estrutura emocional, mental ou social específica, o rebelde opta por um padrão de vida diferente baseado em seus próprios ideais, sentimentos e pensamentos. Portanto, ser rebelde é ter um estilo de vida diferente dos demais.
 Ser rebelde hoje é seguir um estilo de vida diferente do atual. E qual é o estilo de vida atual?
O estilo de vida do século XXI está resumido em cinco palavras: frieza, egoísmo, libertinagem, materialismo e apatia. Então, aqueles que não se encaixam nesses padrões sócio-emocionais atuais, podem ser considerados rebeldes.
  Eu não quis dizer que o século XXI é ruim. O nosso século tem conquistas tecnológicas, humanitárias e jurídicas maravilhosas além de ter ampliado a consciência ecológica por meio do incentivo de um desenvolvimento sustentável. Mas, infelizmente, o padrão de vida nebuloso e obscuro que, aos meus olhos, se impõe de uma forma ou de outra no dia-a-dia atual possui uma daquelas cinco palavras que eu citei. Seguem explicações a respeito das características sociais atuais que se vinculam às palavras citadas.
 *A frieza está presente na falta de sensibilidade e na mecanização das tarefas. A maioria das pessoas perdeu o romantismo, a meiguice e a sensibilidade. Além do mais, exceto alguns filófofos e pensadores, não se costuma filosofar a respeito de nada, sendo assim, as pessoas "engolem" as modas midíaticas sem pensar e fazem do seu dia-a-dia uma operação mecânica: trabalham, estudam e se divertem de forma mecanizada. O trabalho,por exemplo, perdeu o valor social e virou sinônimo de mera fonte de renda.
 *A apatia se faz presente na falta de entusiasmo perante o trabalho, que é visto somente como uma obrigação. São raros os trabalhadores com brilho no olhar e que trabalham por prazer e para cumprir uma "missão" social. A maioria das pessoas não se importa em efetuar uma tarefa de qualidade, fazendo apenas o esperado para receber o dinheiro no fim do mês e poder "afogar" a mágoa da mediocridade e da vida vazia nas compras fúteis ou supérfluas: eis o materialismo. Este materialismo também se encontra na supervalorização das coisas materiais em detrimento dos valores morais e dos sonhos.
 *O egoísmo está muito presente hoje nas condutas sociais da maioria. O egoísmo parece um vírus: está espalhado nos trânsitos, nas vilas, nos bairros, nas lojas, nos locais de trabalho e nos colégios. As pessoas não pensam em fazer acordos e cooperar com os outros seres sociais, pois colocam os seus próprios interesses acima de tudo.
O trânsito, por exemplo, parece uma selva com todo mundo estressado, buzinando a todo instante e pronto para "atacar" qualquer um que desagrade. Também há de se falar que os egoístas, geralmente, são impacientes, manipuladores e "frios".
  *A libertinagem atual está cada vez mais saliente.
 É imensamente triste saber que pessoas no passado deram suas vidas em diversas revoluções para que nós tivéssemos a liberade que nós temos hoje e, no entanto, o ser humano deturpa a liberdade, usando-a de modo equivocado cada dia que passa.
  O uso da liberdade sem bom senso é o que caracteriza a libertinagem. Ganhamos a liberade de expressão para que as mais diferentes ideias pudessem ser divulgadas a fim de contribuirmos com a sociedade. Contudo, o ser humano utiliza de modo ruim a liberdade de expressão quando critica de modo destrutivo e desnecessário os demais e quando expressa seus pensamentos obscuros  e opiniões preconceituosas sem qualquer bom senso.
 A liberdade sexual foi conquistada para que o ser humano pudesse usufruir as diversas sensações do amor. Não obstante, nos dias atuais, há uma libertinagem sexual desnecessária e frenética, a qual é propagada e incentivada pela mídia a todo instante quando se vende o ideal de diversão sem moderação e materialismo excessivo. Além disso, as pessoas se beijam como se tivessem tomando um copo d'água. A  busca desenfreada por um prazer sem limite e diversão a todo custo gerou a banalização do sexo e do beijo, a desvalorização do amor e a perda da sensibilidade.  O ser humano se tornou um mero objeto de diversão perante o outro, o que propiciou a perda do romantismo e da busca por um amor sincero e completo.
 Explicados os conceitos das características que rondam nosso universo atual, voltamos ao conceito de rebelde. Este é simplesmente alguém que não concorda, não segue e não gosta dessa conjuntura vivida atualmente. Ao invés de frieza, materialismo, apatia, egoísmo e libertinagem, o rebelde defende a sensilibilidade, os valores que não são vistos, o entusiamo, o altruísmo e a liberdade com responsabilidade.
Eis um dos grandes paradoxos da rebeldia atual que contraria o velho esteriótipo: o rebelde hoje não é mais aquele que defende a liberdade total, visto que a liberdade já foi conquistada, mas aquele que se opõe à conjuntura social atual, sendo contra a libertinagem e a favor de valores diferentes. Afinal, ser rebelde é defender o que é diferente, o que não é visto e o que ainda não se tem.

Hoje há mais rebeldia num ato de delicadeza, pureza e romantismo, visto que o mundo é insensível, do que em transgredir uma norma ou ter libertinagem. Não há nada excêntrico e rebelde na libertinagem, tendo em vista que essa é usual e comum em nossos dias. Ser sensível num mundo frio, e delicado numa sociedade egoísta e apática é ser diferente e ser rebelde. Afinal, a essência da rebeldia está na oposição, na excentricidade, em ser diferente, em nadar contra a corrente.
 Ser rebelde não tem nada a ver com a roupa que se veste. Não é preciso usar roupas excêntricas para mostrar aos outros quão  original você é. Mostre a excentricidade através das ideias e seja você mesmo, porque ser rebelde é algo que nasce com a alma e, por isso, nada tem a ver com o corpo ou roupas.  Rebeldia é uma revolta que brota do fundo da alma contra o "staus quo", é uma vontade de "quebrar" paradigmas e contruir um mundo novo e melhor.
 Não há nada de errado em seguir o que os outros costumam fazer. Mas também não há nada de errado em não seguir os paradigmas sociais. Ser rebelde não é ser melhor nem ser pior do que ninguém: é simplesmente ser diferente. Ninguém está errado por ser diferente. Seja diferente e tenha atitude. Expresse a sua alma sem medo de parecer "louco". Seja você mesmo sempre.
Se você é romântico, permaneça romântico e não se importe pelo fato de que muitas pessoas vão querer que você seja frio como elas.
Se você é sensível, seja sensível sempre sem se importar pelo fato de a maioria das pessoas ser insensível.
Não siga a maioria. Seja persistente em seus ideiais.
Não importa a força da corrente, um rebelde nadará sempre em direção oposta. O importante é ser feliz do jeito que se é. E, se a sua felicidade está do outro lado da corrente, vá buscá-la sem se importar com a correnteza. Seja invicto.
 *Quanto aos nossos dias e suas características, deveríamos resgatar o entusiasmo diante de nossas tarefas. O dinheiro é importante, mas deve ser consequência de um trabalho honesto e de qualidade efetuado com prazer e brilho no olhar, e não o único objetivo. Aliás, o objetivo do trabalho deveria ser o cumprimento de uma bela missão social. Desse modo, a apatia e o materialismos seriam superados.
Quanto ao egoísmo, defender os nossos interesses é necessário, mas, em uma sociedade, a cooperação e o equilíbrio de interesses deveria fazer parte de nossa estrutura em prol da harmonia e da felicidade de todos nós. Além disso, um pouco de altruísmo faria muito bem a todos.
 O romantismo deveria ser resgatado ou, ao menos, respeitado. Quem é romântico, às vezes, é visto como louco nos dias atuais por defender ideais de amor e ternura.
O amor livre atual é bom, mas a libertinagem desnecessária só banaliza o prazer e reduz o ser humano à condição de objeto. Seria bom se valorizássemos a busca de um amor completo e que tivesse, além do sexo, ternura, companheirismo, cumplicidade, romantismo e devoção. Dessa forma, creio que os relacionamentos seriam mais duradouros e a felicidade seria mais completa. Afinal, ninguém vive de prazeres efêmeros. A sensação de plenitude só é preenchida com amor e devoção. De qualquer forma, a devoção(respeito, afeição, dedicação) deveria estar presente em nossos dias em prol da qualidade do nosso amor, dos nossos trabalhs e dos nossos atos. Sem dedicação, a vida seria chata e apática.
Por fim, espero que o texto tenha ajudado a refletir um pouco a respeito de nossa sociedade atual e das novas faces da rebeldia contemporânea.
Texto escrito por: Tatyana Casarino