O Cantinho de Tatyana Casarino. Aqui você encontrará Textos diversos e Poesias simples com a medida do coração.









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domingo, 21 de abril de 2019

Divulgação de Livro -- Taquarê: Entre um Império e um Reino

Olá, pessoal! Essa postagem é para divulgar o lançamento do livro do meu amigo escritor Mateus Ernani Heinzmann Bulow. Eis a continuação do primeiro livro da série Taquarê (Taquarê: Entre a Selva e o Mar)! Confiram agora o novo livro do Mateus Bulow -- Taquarê: Entre um Império e um Reino! 



Capa do Livro. 
Vejam que capa linda!


  Quase vintes anos de paz em armas separam a fronteira entre o Terceiro Império do Brasil e o Reino da Venezuela, as duas nações mais poderosas da Sulamérica. Entretanto, essa tênue balança de poder sofre um solavanco severo com os ataques às vilas ao norte da guarnição de Roraima, onde Taquarê se instala após uma decisão dada pelo Imperados do Brasil. Não demora até notícias envolvendo exércitos de harpias sobrevoando a fronteira ecoarem pela região, desnudando uma rivalidade ainda não resolvida entre ambas as nações. 
   Determinados a se vingar das invasões, os brasileiros se preparam para uma expedição punitiva à Venezuela, mas encontros inesperados com fugitivos do país vizinho revelam histórias assustadoras sobre o que está ocorrendo na nação rival. Um velho adversário está de volta à Sulamérica, disposto a acordar as feras escondidas sob o sol, e um usurpador assumiu o comando do reino vizinho, instalando um regime de terror. Será preciso mais do que um arcabuz capaz de soltar raios para conter essa ameaça. 
   O exército imperial parte para o inevitável confronto, acompanhado de aliados até então impensáveis. A luta contra o novo exército da Venezuela, agora reforçado por criaturas sinistras e feiticeiros, está apenas começando...



                                                 

Contracapa do Livro. 







"Orelha" do Livro. 


Brasil e Venezuela.

Dois países, um destino inevitável: a Guerra.

No entanto, a terra começa a tremer antes da chegada das tropas.

O terror escondido nas profundezas não está mais adormecido, despertado por feiticeiros de terras longínquas.

E os raios e trovões cairão na fronteira norte, empunhados por um único soldado: Taquarê. 




*Para quem quiser conferir a sessão de autógrafos:

Data: 01 de Maio de 2019 (Quarta-Feira). 
Local: Cidade de Santa Maria/RS. 

*Maribel da Costa Dal Bem (Otg.) -- EEEM Cilon Rosa - Turmas 301, 303, 304 e 305. 




Tatyana Casarino. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

10 Militares que sacrificaram suas próprias vidas em conflitos.

                           


Olá, pessoal! Hoje eu trago um texto muito especial feito por Mateus Ernani Heinzmann Bulow, escritor colaborador do meu blog. Trata-se de uma lista com dez militares que sacrificaram as suas próprias vidas em conflitos. Tendo em vista a mensagem de sacrifício que a Páscoa sempre evoca aos cristãos, o autor do texto de hoje decidiu reunir dez histórias onde a renúncia da própria vida implicou em consequências inéditas no transcurso de cada conflito citado. Confiram! 

10 Militares que sacrificaram suas próprias vidas em conflitos.

                                   

        Quando chega a Páscoa, nossas visões mais habituais envolvem os ovos, os coelhos, a abstenção da carne, entre outros costumes. No entanto, a Páscoa possui um significado de certa forma doloroso, nesse caso o sacrifício de Cristo para salvar a humanidade e redimir os pecados, com seu retorno no Domingo da Ressurreição. Assim como Jesus, nós fazemos sacrifícios todos os dias: deixamos de ir ao cinema para estudar mais, comemos menos doces e fazemos exercícios quando desejamos emagrecer...
        Ao menos nossa geração atual pode se dar ao luxo de não temer guerras, embora elas ainda existam em certos cantos do globo. Dispor da própria vida em combate é um sacrifício que, felizmente, não é uma preocupação forte entre os jovens de hoje, como era até alguns anos atrás. Mesmo assim, essas histórias de valentia não deveriam ser esquecidas, inclusive por lembrar-nos dos tempos mais tranquilos nos quais vivemos.
        A ideia de uma lista com guerreiros que fizeram o supremo sacrifício, realizado por livre e espontânea vontade, vinha desde a segunda parte da lista de Mulheres que devem ser lembradas, voltada para as mulheres que foram para a linha de frente. Uma delas era a rainha siamesa Suriyothai, uma heroína popular até hoje na Tailândia, por se interpor em um duelo e salvar seu marido, o rei Maha Chakkraphat, ao custo de sua própria vida.
        Foi pensando na proximidade da Páscoa que pensei em fazer essa lista, com dez combatentes de diversos países e regiões do globo, sejam eles comandantes ou recrutas, unidos pelo sacrifício supremo. Provavelmente, a primeira lembrança do leitor ao ver essas histórias tristes, porém heroicas, será a do rei Leônidas e seus trezentos espartanos nas Termópilas, contra os persas de Xerxes. Entretanto, a lista contará apenas os conflitos após a Era Medieval, com registro mais apurado; também não há uma ordem cronológica, a fim de deixá-la mais variada. Sem mais delongas, em frente!

1-Antônio João Ribeiro.



Conflito: Guerra do Paraguai, também chamada Guerra da Tríplice Aliança.

        Nossa lista começa com um herói brasileiro, e infelizmente pouco lembrado fora dos meios militares. Nascido na vila de Poconé, Província de Mato Grosso, em 1823, Antônio João Ribeiro ingressou na cavalaria como soldado voluntário em 1841, servindo em diversos destacamentos de fronteira. Mais tarde, foi promovido a 1º tenente em 1860 e comissionado comandante da Colônia Militar de Dourados (não confundir com a cidade atual de mesmo nome), uma das poucas fortificações na província do Mato Grosso.
        Em dezembro de 1864, o Paraguai, então sob a tirania de Francisco Solano López (para saber mais sobre ele, veja a lista dos 10 Tiranos que poderiam ser Vilões da Literatura), capturou navios brasileiros e invadiu o Império, em três colunas de soldados a pé e a cavalo, deixando um rastro de destruição e saques por onde passavam. Não se sabe exatamente quantos paraguaios compunham a coluna sob o comando do major Martín Urbieta, embora algumas fontes falem em até 2.000 homens. Sabe-se, entretanto, que Antônio João contava com apenas quinze companheiros, além de quatro civis armados de espingardas e uma mulher, todos dispostos a ajudar na batalha vindoura.
        Ao perceber os inimigos se aproximando, Antônio João ordenou a evacuação dos civis com alguns soldados, desejoso de evitar o mesmo destino da colônia militar de Corumbá, que resistiu durante três dias antes de ser derrotada. Com isto, seus números diminuíram ainda mais, porém os soldados e civis sob o comando de Antônio João resistiram como puderam aos paraguaios, recusando uma proposta de rendição. Todos os poucos e valentes defensores de Dourados cairiam sob a fuzilaria e os canhões paraguaios.
        Antes do início da batalha, Antônio João teria despachado um mensageiro, junto dos refugiados, com uma mensagem aos seus superiores. Era uma frase singela, que se tornou célebre: “Sei que morro, mas o meu sangue, e o dos meus companheiros, servirá de protesto solene contra a invasão do solo de minha Pátria”. Como reconhecimento pela bravura em combate, o tenente Antônio João Ribeiro foi nomeado patrono do Quadro Auxiliar de Oficiais do Exército Brasileiro. A antiga colônia militar mudou o nome para Antônio João Ribeiro, ao se tornar município, e o herói ainda é citado no hino do Mato Grosso do Sul:




                     https://www.youtube.com/watch?v=wHeDyNDY4hQ

2-José Quiñones Gonzales.



Conflito: Guerra do Peru contra o Equador de 1941.

        Enquanto a Europa, o norte da África e a Ásia pegavam fogo durante a Segunda Guerra Mundial, a América do Sul seguia em relativa paz. Isso até o ano de 1941, quando Peru e Equador entraram em disputa por um grande pedaço da Amazônia, em um conflito que se estenderia até o ano seguinte. Aqui encontraremos o próximo combatente da lista, e o único aviador presente nela: o peruano José Quiñones Gonzales.
        José Quiñones nasceu na cidade portuária de Pimentel, sendo o mais novo de três irmãos. Grande admirador de conterrâneos como Jorge Chávez e Juan Bielovucic, aviadores vistos como heróis em seu país, José Quiñones logo se juntou à jovem força aérea do Peru. Uma anedota de seus companheiros de voo afirma que, ao ouvir um professor afirmando a falta de heróis na força aérea do Peru, José Quiñones teria respondido com um sonoro “presente!”. Em 1939, José Quiñones surpreendeu seus superiores na graduação, ao voar apenas um metro de distância do solo com um bimotor, e de cabeça para baixo.
        Quando estourou a guerra, José Quiñones fazia parte de um grupo aéreo responsável por diversas tarefas, tais como fotografar o terreno e apontar as posições do inimigo. A superioridade aérea do Peru frente ao Equador fez a diferença em muitas batalhas, e para compensar a desvantagem nos céus, os equatorianos instalaram um bom número de baterias antiaéreas e ninhos de metralhadoras em posições difíceis de serem alcançadas. Um grupo de três pilotos foi ordenado a bombardear as baterias equatorianas, usando de aviões caças P-64, considerados modernos para a época.
        Durante a missão, o avião de Quiñones foi atingido, perdendo altitude, e ao invés de pular de paraquedas, um equipamento no qual era destro no uso, José Quiñones direcionou a aeronave rumo a uma bateria antiaérea inimiga, destruindo-a e morrendo no ato. O dia de seu sacrifício, 23 de julho, é o dia da Força Aérea no Peru, e a guerra terminaria em 29 de janeiro de 1942, com a vitória de seu país. O voo invertido pela qual ficou famoso também possui filmagens da época:



                       https://www.youtube.com/watch?v=V1o1PX9oD3o

3-Juan Santamaria.



Conflito: Guerra contra os Filibusteiros, também chamada Guerra Nacional da Nicarágua.

        Se o leitor já passou os olhos na lista das Mulheres na Guerra, do mesmo autor, deve se lembrar de Francisca Carrasco Jimenez, uma heroína da Costa Rica. Nosso próximo personagem foi conterrâneo de Francisca, além de ter lutado na mesma guerra contra invasores americanos, desejosos de instalarem um protetorado na América Central. Esses verdadeiros “piratas” eram chamados “Filibusteiros” pelos centro-americanos, e infernizaram a região nos anos de 1856 até 1857, obrigando países outrora rivais a unirem forças contra um inimigo em comum.
        Juan Santamaria era filho extraconjugal de Manuela Santamaria Rodriguez, e não se sabe o nome de seu pai. Com escassos dez anos de idade, Juan trabalhava como jornaleiro e servente de pedreiro, além de ter sido sacristão, e entrou para o exército ainda menino, virando tamborileiro. Seus amigos o apelidaram de “El Erizo” (“O Ouriço”), devido ao cabelo espetado e desgrenhado, e respeitavam sua honestidade e coragem. Essa mesma coragem seria demonstrada durante a guerra de 1856-1857.
        Uma batalha em particular foi especialmente custosa para o exército aliado centro-americano, em Rivas, devido à resiliência dos Filibusteiros em uma casa sobre uma colina. Um general de El Salvador sugeriu que algum soldado valente incendiasse a edificação, mas ninguém conseguia se aproximar do local sem levar chumbo. Juan Santamaria, então com 25 anos, se ofereceu para correr com uma tocha até a casa, com a condição de que alguém cuidaria de sua mãe, caso morresse. Durante a correria até a edificação, Juan foi ferido de morte, porém conseguiu arremessar a tocha na casa, incendiando o esconderijo Filibusteiro e virando a batalha em favor do exército aliado.
        A adoração a Juan Santamaria na Costa Rica começou pouco tempo após sua morte, com direito a uma estátua inaugurada em 1891, obra de um escultor francês chamado Aristide Croisy; hoje, essa estátua fica ao lado do Aeroporto Internacional Juan Santamaria, o maior aeroporto da Costa Rica. Apesar desse pequeno país da América Central não contar com forças armadas desde 1948, possuindo apenas força policial e guarda costeira, a imagem de Juan Santamaria segue forte no imaginário costarriquenho, justamente por ele ter sido um jovem humilde, disposto a fazer o impossível por seu país. Até mesmo um hino foi composto em sua homenagem:



                     https://www.youtube.com/watch?v=lgFtg8BfIgM

4-Pyotr Bagration.



Conflitos: Guerra Russo Circassiana; Guerra contra os Otomanos de 1787-1792; Rebelião de Kosciuszko; Guerra contra a Suécia de 1808-1809; Invasão Napoleônica à Rússia.

        Nosso próximo combatente nasceu em 1765, na cidade de Tbilisi, atual capital da Geórgia. Esse pequeno reino cristão foi citado na lista dos 10 Casais da Realeza desse blog, ao falar da rainha Tamara e de seu esposo, o general Davi Soslam. Pyotr Bagration era membro da mesma casa real dessa rainha, e assim como muitos nobres georgianos, decidiu seguir o caminho das armas. Na época, a Geórgia estava dividida em muitos reinos, e muitos deles eram vassalos da Rússia; entretanto, apesar de reconhecer sua origem georgiana, Pyotr Bagration se apresentava como um “russo puro”.
        Desde seu batismo de guerra, na guerra da Rússia contra a Circássia, Pyotr seguiu uma carreira meteórica, galgando posições elevadas e sendo nomeado Knyaz (“príncipe”) pelo imperador Paulo I, após sua promoção a Major-General. Durante esse período, surgiram boatos de que Pyotr namorava em segredo a princesa Catherine, filha de Paulo I; como se fosse uma ironia do destino, o Tzar arranjou um casamento a Pyotr, com outra princesa chamada Catherine, vinda de um ramo distante da família Bagration.
        Após lutar contra a Suécia, conquistando a Finlândia, Pyotr foi chamado às pressas para Moscou, para conter os exércitos franceses de Napoleão. O avanço francês parecia irrefreável, e a participação de cidadãos armados foi fundamental, chamando a atenção de Pyotr. Impressionado com a disposição desses patriotas, o Major-General tentou convencer seus superiores a investirem mais nas guerrilhas, sem muito sucesso.
        A derradeira batalha de Pyotr Bagration seria em Borodino, 1812. As tropas sob seu comando construíram barreiras contra os franceses, além de fazerem constantes contra-ataques, sem conseguirem repelir de vez seus adversários. Nessa confusão, Pyotr foi atingido por fragmentos de artilharia na perna, sendo carregado para longe da batalha por seus subordinados. Ao perceber que as tropas perdiam moral com sua ausência, Pyotr insistiu em retornar ao campo da batalha, o que certamente piorou a condição de sua perna e acelerou a morte. Borodino terminou em vitória para os franceses, mas a um preço muito alto, e o exército napoleônico teria de sair da Rússia, após essa última “vitória”.

5-Nikola Šubić Zrinski.



Conflito: Guerras Habsburgo Otomanas.

        Durante um longo período entre 1526 até 1791, o Leste Europeu foi palco de uma terrível disputa entre dois impérios e duas fés. De um lado, a monarquia da casa real de Habsburgo, reinante sobre a Áustria, contra o Império muçulmano dos Turcos Otomanos, fortalecido após a captura de Constantinopla. No caminho desses mamutes, havia uma colcha de reinos e principados de lealdade oscilante, ora apoiando os Habsburgos, ora ajudando os otomanos. Um desses países era a Croácia, e um de seus maiores líderes foi Nikola Šubić Zrinski, visto como herói não apenas entre seu povo, como também entre os húngaros.
        O título nobiliárquico de Zrinski era Ban, um termo croata para nomear os líderes locais vassalos dos Habsburgos. Em 1552, Zrinski se destacou ao salvar um exército inteiro da destruição no cerco de Pest, ao intervir com 400 cavaleiros croatas, e pouco tempo depois, ele já estava casado com uma nobre chamada Katarina Frankopan, além de receber um domínio de bom tamanho, do próprio Imperador austríaco. Durante os anos seguintes, Zrinski continuou enfrentando os otomanos nas fronteiras da Hungria ocupada.
        Em 1566, uma força conjunta de croatas e húngaros defendia a fortaleza de Szigetvár, no sul da Hungria, sob o comando de Zrinski, e os otomanos não conseguiam derrotar a resistência, mesmo com a superioridade numérica (150.000 turcos contra 2.300 cristãos) e o maior número de canhões. A refrega durou um mês, e nesse meio tempo, o próprio sultão Solimão I morreu em sua tenda, adoecido com o clima chuvoso; os comandantes otomanos tiveram de ocultar seu súbito falecimento, a fim de evitar a queda da moral entre a tropa.
        A última batalha ocorreu logo após a morte de Solimão, com uma última carga de cavalaria liderada por Zrinski, e os últimos 600 defensores ainda vivos. Os turcos receberam com alegria o fim da batalha e a morte de Zrinski, porém sua alegria durou pouco tempo: antes de partirem para o derradeiro confronto, os croatas e húngaros deixaram barris cheios de pólvora no porão da fortaleza principal, com um pavio aceso. A explosão resultante causou a morte de mais 3.000 turcos, obrigando-os a recuarem para leste, antes que perdessem mais soldados. O evento ainda é lembrado na música croata U Boj, U Boj (“À Batalha, à Batalha”), bem como em reconstituições de época:




6-Adnan bin Saidi.



Conflito: Invasão japonesa à Malásia, durante a Segunda Guerra Mundial.

        Durante a Segunda Guerra Mundial, diversas colônias britânicas foram invadidas pelos japoneses, como a Malásia e Cingapura, em um avanço irrefreável. O próprio ministro inglês Winston Churchill descreveu a perda de Cingapura como “o maior desastre da história militar britânica” (um comentário curioso, vindo de alguém responsável pelo fiasco de Galipoli, na Primeira Guerra Mundial). No entanto, os japoneses logo encontrariam um adversário formidável, não entre os britânicos, e sim entre os soldados malaios que defendiam as colônias. Um desses combatentes foi Adnan bin Saidi, saudado como herói tanto na Malásia como em Cingapura.
        Adnan nasceu em 1915, sendo o mais velho de três irmãos, dos quais apenas o mais novo sobreviveria à Segunda Guerra Mundial. Sua esposa era uma professora religiosa islâmica, chamada Sophia Pakir, e com ela Adnan teve dois filhos; o filho mais velho afirmava que seu pai não era de falar muito, além de ser estrito e disciplinado, porém sempre havia uma “luz” iluminando seu rosto. Essa firmeza de caráter o levou a fazer parte do Real Regimento Malaio de Infantaria, responsável por defender a colônia, e alcançar a posição de tenente, em 1941.
        Em 1942, Adnan liderava uma unidade de quarenta e dois malaios na defesa de Pasir Pajang, uma vila ao sul da cidade de Cingapura. Apesar da desvantagem numérica abismal, Adnan recusou uma proposta de rendição oferecida pelos japoneses, segurando a posição durante dois dias, antes do fim da munição dos fuzis. Os malaios tiveram de partir para a luta com facas, baionetas e granadas, e Adnan continuou lutando, mesmo após ser atingido. Sabe-se que Adnan morreu em batalha, porém as condições exatas de sua morte frente às forças imperiais do Japão são um mistério.
        As perdas britânicas foram severas, e os japoneses ocuparem a região até 1945. No entanto, os ingleses passaram a ver os malaios com maior respeito, buscando cooperar com maior eficiência ao lado dos soldados locais. Essa aliança provaria seu valor durante a insurgência comunista na Malásia durante a década de 1960, onde britânicos e malaios lutaram juntos pela última vez, dessa vez obtendo uma vitória acachapante. Em 1963, a Malásia virou um país independente, seguida pela Cingapura em 1965.

7-Stanislaw Zolkiewski.



Conflitos: Rebelião de Danzig; Guerra de Sucessão Polonesa; Guerra Russo Polonesa de 1605-1610; Guerra Otomana Polonesa de 1620-1621.

        Nosso próximo integrante na lista foi um nobre polonês que ocupou muitas funções administrativas na então chamada Comunidade Polaco-Lituana, um vasto país que chegou a dominar quase todo o Leste Europeu. Apesar de contar com menos instrução em comparação com outros nobres da corte, a natural curiosidade e aptidão para literatura histórica de Stanislaw Zolkiewski logo lhe garantiram um cargo de diplomata, servindo como representante polonês na coroação do rei Henri III da França.
        O batismo de fogo de Zolkiewski ocorreu sob o serviço do rei Stephan Batory, na repressão de uma revolta na cidade de Danzig. Em 1588, ocorreu uma guerra pelo trono entre dois pretendentes, e Zolkiewski sofreu um ferimento no joelho em uma batalha, que o deixaria manco pelo resto da vida. Como reconhecimento do apoio na facção vitoriosa, Zolkiewski foi promovido a Grande Hetman (como os poloneses chamam seus líderes militares), envolvendo-se em mais lutas na fronteira leste da Comunidade Polaco-Lituana, contra os tártaros e os moldavos, além de muitos bandos de cossacos que aterrorizavam a região.
        O feito pela qual Zolkiewski é mais lembrado na Polônia foi a decisiva batalha de Klushino, em 1610, onde 6,500 poloneses derrotaram um exército combinado de 30.000 russos e 5.000 mercenários suecos; o exército polonês perdeu apenas 400 homens, e aos mercenários capturados foram garantidas todas as liberdades, desde que estes não voltassem a servir a Rússia. O sucesso em Klushino foi fundamental para a captura de Moscou no mesmo ano, e os poloneses apenas sairiam da capital russa em 1612; nenhum exército repetiria a façanha de capturar Moscou, até a invasão napoleônica da Rússia.
        Em 1618, Zolkiewski receberia o título de Grande Chanceler da Coroa. No entanto, mesmo com setenta anos de idade, o velho Hetman não abandonou a vida militar. Sua última batalha ocorreria na atual Romênia contra os otomanos; tudo parecia perdido para os poloneses, e apenas as forças sob o comando de Zolkiewski mantiveram posição, até serem massacrados, porém permitindo a fuga dos companheiros. Enquanto os poloneses exaltam Zolkiewski, os russos nunca engoliram a derrota em Klushino: em 1939, após a invasão conjunta soviética e alemã sobre a Polônia, os russos destruíram a estátua de Zolkiewski na cidade de Zhovkva.

8-Havildar Ishar Singh.




Conflito: Campanha de Tirah.

        Desde a antiguidade, o território montanhoso do Afeganistão era conhecido como “o cemitério dos impérios”, devido à enorme dificuldade de conquistar e manter a área sob um mínimo de controle (os americanos que o digam). Em 1897, seria a vez do Império Britânico experimentar a fúria do Afeganistão, mas o personagem aqui tratado não é um soldado ou comandante inglês, e sim um comandante Sikh, membro de uma religião surgida no Século XV, e também um dos povos mais belicosos da Índia.
        A Campanha de Tirah ocorreu após as três guerras Anglo-Afegãs, conflitos violentos de resultado duvidoso. Apesar de não ocorrer nenhuma vitória definitiva, os ingleses conseguiram segurar uma tênue fronteira entre o Afeganistão e o atual Paquistão, assinalada por dois fortes e uma pequena vila chamada Saragarhi. Nessa vila foi instalado um pelotão Sikh, composto por vinte e um homens, sob o comando de Havildar Ishar Singh; a localização entre os dois fortes fazia de Saragarhi um local perfeito para instalar um sinal de luz operado manualmente.
        Rebeliões e ataques dos afegãos não eram novidades naquela fronteira, mas nada havia preparado os britânicos e Sikhs para o dia 12 de setembro de 1897: nada menos que 10.000 afegãos das tribos Afridi e Orakzai desceram as montanhas, rumo a Saragarhi. Quando a primeira linha defensiva foi rompida, Ishar Singh ordenou os homens a recuarem, enquanto ele se atirava sobre os afegãos, de espada e revólver em mãos. O comandante Sikh eliminou alguns invasores, antes de tombar morto, e seus homens conseguiram recuar sem deixar uma brecha para os invasores.
        A cruenta batalha terminaria com todos os Sikhs mortos, porém os afegãos perderam fôlego no avanço, vendo-se obrigados a recuarem quando mais reforços britânicos e Sikhs apareceram no horizonte. Todos os vinte e um combatentes Sikhs de Saragarhi foram postumamente condecorados com a Indian Order of Merit, a mais alta condecoração disponível aos indianos a serviço do Império Britânico, e o dia 12 de setembro é celebrado pelo moderno Exército Indiano, bem como por diversas comunidades Sikhs fora do país.

Observação: A imagem representando Havildar Ishar Singh e seus vinte e um companheiros pertence a um filme de 2019, chamado Kesari (“Cor de Açafrão”, em hindi). O filme fala dessa batalha, com o exagero tipicamente indiano, como visível no trailer (não recomendado para quem não gosta de cenas violentas):


9-Alfredo Cantu Gonzales.



Conflito: Guerra do Vietnã, também chamada Segunda Guerra da Indochina.

        Assim como o Afeganistão, o Vietnã é um país que se mostrou resistente à ocupação de nações mais fortes: desde a antiguidade, o Vietnã lutou contra a China em inúmeras ocasiões e freou o avanço dos mongóis de Genghis Khan. Mais tarde, os vietnamitas lutaram contra outros reinos vizinhos, como o Laos e a Tailândia, e contra os colonizadores franceses, expulsos em 1954. A última luta vietnamita frente a inimigos vindos do ocidente seria contra os Estados Unidos da América, entre 1961 e 1975, pátria do próximo integrante da lista.
        Alfredo Cantu Gonzales nasceu no Texas em 1946, filho de pai americano e mãe mexicana, e apesar de pequeno para a idade, o rapaz era ligeiro e hábil no futebol americano. Em 1965, essa persistência levou Gonzales a entrar para o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, até assumir função de instrutor, dessa vez longe do Vietnã. Gonzales provavelmente teria permanecido nessa posição, se não tivesse descoberto que muitos companheiros haviam morrido em uma emboscada. Em 1967, Gonzales fez um requerimento para retornar ao Vietnã e se juntou a um novo pelotão dos Fuzileiros Navais, alcançando as patentes de sargento e líder de esquadrão.
        Em 1968, a cidade de Hué foi submetida a um cerco pelas forças vietnamitas do norte; Gonzales, já apelidado de “Freddy” por seus companheiros, ficou encarregado de guardar um comboio de caminhões. Durante uma operação, ele recebeu tiros na perna, enquanto carregava um companheiro ferido. O incidente obrigou toda a unidade a recuar até Hué, onde outra batalha se seguiu, e Gonzales recusou tratamento médico, a despeito dos ferimentos. No dia seguinte, ocorreu outro ataque, e Gonzales despachou um bom número de adversários com um lançador de foguetes, antes de ser atingido por uma arma antitanque. Embora ferido, Gonzales conseguiu se arrastar até as ruínas de uma igreja católica, onde morreria.
        Além de receber a Medal of Honor (honraria máxima militar americana) e a medalha Purple Heart (concedida postumamente aos caídos em combate), Gonzales ainda foi homenageado com um navio da classe destroier com seu nome; sua mãe, Dolia Gonzales, ainda vive, possuindo uma relação próxima com a tripulação do destroier, e atendendo a diversas cerimônias envolvendo o navio.

10-Nai Thong Men.



Conflito: Guerra Birmano-Siamesa de 1765-1767.

        Nada mais adequado que terminar uma lista inspirada por uma rainha siamesa com outro grupo de heróis siameses. Esse conflito entre a Birmânia (atual Myanmar) e o Sião (atual Tailândia), foi apenas um dos inúmeros incidentes envolvendo os dois países, ocorrendo quase duzentos anos após a primeira guerra entre os dois reinos, justamente na qual morreu Suriyothai. Em 1765, os birmaneses invadiram o Sião com um formidável exército de 100.000 homens, dispostos a acabar de vez com um rival de longa data, responsável por financiar rebeldes nas províncias do sul.
        O avanço dos birmaneses pelas selvas era irrefreável, devido à imensa superioridade numérica, e muitas guarnições caíram sem luta alguma, com seus comandantes preferindo recuar até o interior. Em resposta, muitas vilas e cidades siamesas fizeram resistências e guerrilhas contra o invasor. Uma dessas vilas se chamava Bang Rajan, poucos quilômetros ao norte de Ayutthaya, a capital do Sião na época; onze chefes de vilas se juntaram em Bang Rajan para organizar uma resistência, com as armas que tivessem à mão.
        Não se sabe quanto tempo durou a resistência em Bang Rajan, mas é certo que os birmaneses tentaram avançar sete vezes, sendo repelidos por uma força conjunta de civis e soldados sobreviventes das guarnições derrubadas, escondidos nas matas e fustigando os invasores com espadas, machados, flechas e tiros de mosquete e arcabuz. Apesar da valentia, os guerreiros de Bang Rajan se veriam sobrepujados após uma campanha tão longa, partindo para um embate final contra os birmaneses. Uma das imagens mais icônicas do combate final é Nai Thong Men, um dos onze líderes, montado em um búfalo e partindo para cima dos birmaneses, atropelando muitos inimigos antes de ser abatido.
        Apesar do fim da guerra ser amplamente desfavorável aos siameses, com a completa destruição de Ayutthaya, o tempo seria generoso com eles: os birmaneses tiveram de recuar às pressas, devido a uma invasão do Império Chinês Qing ao norte, enquanto a já decadente nobreza de Ayutthaya seria substituída por uma nova geração de monarcas guerreiros, cientes da necessidade do país se armar e se modernizar. Como resultado, o Sião foi o único país do sudeste asiático a não ser colonizado, enquanto a Birmânia foi dominada pelos britânicos, alcançando a independência apenas em 1947.

Observação: A imagem de Nai Thong Men e seus companheiros no início é a capa do filme tailandês Bang Rajan, sobre essa batalha. Apesar de conter a habitual mitificação do ocorrido, é uma boa pedida para quem está cansado dos filmes de ação americanos. Trailer traduzido para inglês, logo abaixo (de novo, não recomendado para quem não gosta de cenas violentas):




Texto escrito por Mateus Ernani Heinzmann Bulow. 




Capa do livro do autor do texto. 

*Mateus, o escritor da postagem, é gaúcho da cidade de Santa Maria/RS, Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Santa Maria (FADISMA), escritor, poeta e autor do Livro "Taquarê -- Entre a Selva e o Mar". 

*Livro do Mateus no Skoob:


*Link que remete a todas as postagens do escritor colaborador:


*Link sobre o texto das mulheres que participaram de guerras escrito por Mateus, o mesmo autor da postagem de hoje:

http://tatycasarino.blogspot.com/2017/11/mulheres-que-devem-ser-lembradas-parte-2.html

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Resenha de Páscoa -- O que significa o Santuário de Schoenstatt?

                                              

     Trata-se de um ciclo de palestras realizado na Família de Schoenstatt, em Santiago do Chile, nos meses de maio e abril de 1973. Tal palestra foi ministrada pelo Padre Hernán Alessandri Morandé. O livro é um compilado escrito das gravações das palestras originais. 
    Esse livro relata inicialmente as principais críticas feitas aos santuários em geral, explicando que essas partem do pensar mecanicista do mundo advindo tanto dos naturalistas (seres humanos apegados à matéria e ao mundo visível) quanto dos sobrenaturalistas (espiritualistas dualistas que separam o material do divino por acharem aquele pecaminoso). 

                              

Santuário de Brasília. 
      

          O santuário enquanto edifício material representa o Corpo material de Cristo e a ponte para o encontro com Deus. O Santuário é a mais perfeita união entre o mundo sensível e o mundo divino ou entre o mundo natural e o sobrenatural, eis que o mundo natural deixa de ser rejeitado pela religiosidade (como é rejeitado pelos puristas na visão de mundo natural "pecaminoso") e passa a ser a sua própria "ponte" santa. 
     Diferentemente dos dualistas que abominam os elementos sensíveis e separam esses elementos do divino, em busca de um sobrenaturalismo puro (como, por exemplo, o viés teológico de Lutero e os protestantes que abominam imagens), o Santuário Católico oferece a união entre os elementos sensíveis (obras humanas, imagens, símbolos, edifício e lugar físico)  e os elementos divinos (as graças de Nossa Senhora, o Corpo de Cristo, a transformação espiritual e o encontro com Deus) para demonstrar que toda a ordem criada pode ser um meio de encontro com Deus, dentro de uma visão orgânica e ampla da vida. Muito mais do que um lugar físico, o Santuário carrega uma filosofia que pretende ser espalhada para todos os seres humanos do planeta: a visão orgânica do mundo. 
          E o que é a visão orgânica de mundo? É o maior contraponto da visão mecanicista de mundo. Na visão mecanicista de mundo, o natural e o sobrenatural estão terminantemente separados, dividindo o mundo entre os naturalistas (as pessoas que negam o sobrenatural pela ausência da fé ou pela supervalorização de recursos meramente humanos) e os sobrenaturalistas (são aquelas pessoas que negam o natural por pensar que os elementos sensíveis são desprovidos do aspecto divino e, por isso, eles seriam pecaminosos em algum nível). 
            Tanto os sobrenaturalistas quanto os naturalistas ficam sós, desiludidos de tudo, sem Deus e sem as forças que d'Ele procedem e que permitiram infundir verdadeira vida na história, consoante Morandé. Ao desprezar a dignidade dos elementos sensíveis e do mundo criado, o sobrenaturalismo privou o ser humano dos meios de acesso simples que levavam à intimidade com Deus. O resultado disso não foi uma salvação purista ao abandonar todos os símbolos, mas uma visão de Deus cada vez mais abstrata e distante do homem moderno. 
             Os vínculos com Deus não ficaram mais "puros", mas acabaram sendo cortados, tendo em vista que o sobrenaturalismo "mutilou" as "pontes" mais clássicas para o caminho divino (e que são muito importantes para o ser humano tanto do ponto de vista psicológico quanto do espiritual): os lugares, as coisas e as pessoas. Destruíram-se os laços entre os lugares, as coisas, as pessoas e as atividades humanas a partir do momento que esses laços não foram mais vistos como pontes que conduzem o homem até Deus. 
              Por outro lado, uma visão extremamente naturalista acaba chegando em uma idolatria nada saudável dos elementos sensíveis quando estes são vistos como fins em si mesmos, supervalorizados e isentos da visão de que são "caminhos" para Deus. Enquanto o sobrenaturalista despreza as criaturas, o naturalista supervaloriza as criaturas e se esquece de suas condições como pontes para o divino. 
              Sobrenaturalistas rejeitam o sensível e naturalistas rejeitam o divino: ambos estão com certos aspectos da vida "mutilados" dentro de si mesmos, equivocados e contribuem para a má saúde psicológica do homem moderno -- que ora foge do divino, ora se refugia em um caminho "purista" e ora deixa acontecer a pulsão de suas paixões inconscientes sem a devida educação moral (por isso, os vícios sexuais desenfreados, o vazio  existencial e as compulsões modernas tomam conta de uma sociedade infeliz). 


                                      

As diversas filiais de Schoensttat no Brasil: mesmas medidas e fidelidade apostólica. Todos os Santuários de Schoenstatt são um só, pois cada um deles remete ao primeiro Santuário criado por Kentenich. 
                 

                   A filosofia da visão orgânica da vida defende a união entre o sensível e o divino, ou seja, entre a ordem natural e a ordem sobrenatural. Quando enxergamos a dignidade de cada criatura, temos consciência da grandeza e da dignidade de Deus. E vice-versa: quando nós nos aprofundamos na beleza do Criador, passamos a ver a ordem natural com toda a sua verdadeira beleza e dignidade além de vermos, nas criaturas, as iluminadas pontes para Ele. A ordem natural não afastará o homem de Deus e, por tal razão, não precisamos temer o contato com o sensível. Pelo contrário, é através dos elementos sensíveis que o homem construirá as sua pontes para a sabedoria divina. 
                       O próprio amor humano (incluindo as suas expressões sensíveis e corporais que não são pecados quando conduzidas com equilíbrio e servindo de ponte para a dignidade divina) pode cantar sua condição de reflexo do amor a Deus e de caminho para Ele. O mal ocorre quando o homem considera tudo o que é sensível como fonte de pecado e corta as inúmeras pontes que Deus colocou na ordem humana para chegar até Ele. O mal também surge quando o homem supervaloriza os elementos naturais e se esquece de se apoiar no amor a Deus, diluindo e subvertendo os elementos sensíveis pela ganância de transformar as metas materiais em metas últimas. 
                  A ordem natural, em si, não é fonte de pecado e sim de aprendizados e ponte para Deus (ora, afinal de contas, o Criador que fez a ordem natural e todas as suas criaturas). O pecado nasce na quebra das pontes entre a ordem natural e a divina e nas subversões. Utilizar símbolos e elementos sensíveis como pontes para o sagrado não é idolatria como dizem os puristas, mas sim uma forma de trilhar a união entre os simples artefatos humanos e Deus. A idolatria estaria na subversão ou na supervalorização dos elementos sensíveis como fins em si mesmos e não mais como pontes para o amor a Deus. 

                                     

Santuário de Santa Maria/RS.
                         

                    Para o pensamento orgânico defendido pelo livro, o homem moderno deve recuperar a capacidade de captar toda a realidade em volta dele como um caminho para Deus. Viver organicamente é desenvolver-se de acordo com todas as dimensões e potencialidades humanas de seu ser a fim de chegar até Deus por meio de todos os caminhos, de todos os vínculos humanos, de todas as coisas, de todos os lugares, de todas as pessoas e de todos os acontecimentos. Sendo assim, o ser humano que pensa, vive e ama organicamente é capaz de transformar cada instante de sua vida num encontro vital com Deus, pois vê a Deus atrás de tudo. 
                          Cada acontecimento carrega, portanto, sinais de aprendizados divinos que podem fortalecer as pontes entre o humano e o divino ou entre o sensível e o sagrado. Pensamento orgânico da vida: Eis o pensamento que carrega a vida de significado e pode salvar a humanidade da depressão, do vazio e da fraqueza espiritual. Os maiores obstáculos para a visão orgânica de humanidade (além da mente mecanicista que é o seu contraponto) são as políticas marxistas (subvertem a ordem natural) e as capitalistas "selvagens" (supervalorizam o material em detrimento da moral). Os schoenstatianos sempre foram "proféticos" ao prever as batalhas políticas da vida contemporânea (lembrando que o livro foi escrito há tempos, ou seja, muito antes dos conflitos políticos atuais). 
                      O ser humano que vive a mentalidade orgânica da vida é capaz de chegar bem perto de Deus e alcançar um grau alto de "divinização" e, ao mesmo tempo, permanece profundamente integrado à ordem humana, professando grande respeito e admiração por tudo o que é criado (ele enxerga pontes entre o humano e o sagrado que somente a visão orgânica pode propiciar).  Portanto, o ser humano imbuído dos preceitos orgânicos citados e ciente das pontes entre o mundo sensível e sobrenatural é alguém cheio de força, pois recebe a força de Deus a cada instante de encontro com Ele. Essa força trazida pelo viver orgânico é capaz de moldar a história da humanidade de modo fecundo e vitorioso. 

                                     

Josef Kentenich foi um padre católico alemão. Ele foi o fundador do Movimento de Schoenstatt em 1914 na Alemanha. Era absolutamente contra o nazismo, o qual era fruto do pensamento idealista e mecanicista que o padre combatia. Foi aprisionado durante um mês em um quarto sem ventilação pelos nazistas por ter se declarado contrário ao nazismo na seguinte frase: "Minha missão é revelar o vazio interior do nacional-socialismo, a fim de assim poder derrotá-lo." O padre também sofreu no campo de concentração de Dachau, onde havia outros sacerdotes presos (em torno de 2.600 sacerdotes). A religião católica foi perseguida durante o nazismo, visto que seus ensinamentos de fraternidade, união e visão orgânica de mundo não combinavam com a cruel ideologia nazista. O padre sobreviveu ao campo de concentração e, a despeito de sua saúde física abalada, preservava uma serenidade inabalável por conta de sua fé. Ofereceu seus períodos de sacrifício ao Capital de Graças do Santuário de Schoenstatt.  



Kentenich jovem.

                        

                      Vale ressaltar que o viver orgânico é muito mais do que uma "filosofia", pois não se restringe ao aspecto intelectual: não se trata de ideias bonitas, mas de um íntegro viver, um amor a Deus que parte do coração, do corpo e da alma. Trata-se de cumprir o preceito bíblico de amar a Deus com toda a sua alma e coração. O livro também critica o intelectualismo do mundo moderno, o qual contribuiu para a visão mecanicista e desprezou importantes mecanismo sensíveis para o caminho até o divino. 
                  Schoenstatt representa essa superação do intelectualismo: o Santuário parte do amor maternal de Nossa Senhora e de sua terna sensação de "aconchego" para desenvolver o caminho divino. O santuário não parte do intelecto, mas diretamente do coração. Além do mais, Schoenstatt é um santuário pequeno, representando muito mais do que aconchego, mas também a simplicidade de sua missão espiritual. Sabe-se que o tipo de santidade que Deus pede aos schoestatianos é desprovido de manifestações grandiosas, milagrosas ou excepcionais. É o que o autor denomina de "santidade do dia-a-dia", isto é, uma santidade expressa no cumprimento mais perfeito possível dos deveres de cada dia. 


                                         

Os interiores dos Santuários também seguem o mesmo modelo (os Santuários são iguais por fora e por dentro em todos os lugares do mundo): uma imagem de Arcanjo Miguel, a imagem da Mãe Rainha e um simples altar. 
                           


                      Na santidade schoenstatiana, a única coisa extraordinária é o imenso amor com que se procura cumprir, da melhor maneira possível, com os deveres ordinários da vida. Deve-se efetuar as tarefas do cotidiano com amor extraordinário. Por isso, o lema schoenstatiano é: "Fazer extraordinariamente bem as coisas ordinárias". Essa é a síntese do viver orgânico: não buscar na espiritualidade o refúgio da realidade nem supervalorizar o cotidiano em detrimento da transcendência, mas penetrar no humano para poder transcender e amar o cotidiano real com o coração repleto fé e de vínculos com Deus. Através do cumprimento de deveres na realidade, podemos viver uma santidade comum se formos íntegros em nossas tarefas humanas. 
                            Segundo o autor, o santo do dia-a-dia aparece, portanto, como uma resultante típica da espiritualidade da Aliança de Schoenstatt: é a pessoa que tem grande abertura para a graça divina e para o atuar de Deus e, ao mesmo tempo, apresenta o máximo desdobramento de atividade e iniciativa humanas. É a aplicação vívida do lema: "Nada sem Vós -- Nada sem nós." Esse lema significa que nada acontece sem a graça de Deus, mas que tudo também depende do esforço humano e da comunhão entre humano e divino. 
                           Conforme o inteligente santo chamado São Francisco de Sales (citado bastante por Padre Kentenich e que não pode ser confundido com outro iluminado santo chamado São Francisco de Assis), é assim que o ser humano deve se comportar: "Confia em Deus como se tudo dependesse Dele, mas atua com tanta energia e responsabilidade como se tudo dependesse de ti." Nesse sentido, nascem os princípios teológicos do Capital de Graças, pois Deus e Nossa Senhora abençoarão o Santuário de Schoenstatt na medida em que os seres humanos se esforçarem para cumprir seus deveres de amor e santidade. Essa é a Aliança de Amor que liga os schoentatianos às graças do Santuário. 
                              Portanto, não importa tanto o que uma pessoa faz, mas como ela faz, pois são levados em consideração o amor, a docilidade e a entrega à vontade de Deus. Desse modo, aquele que está descascando batatas com amor e varrendo o pátio com fé pode ser mais santo e influenciar de maneira mais grandiosa a sociedade através de sua simplicidade verdadeira do que o político que somente discute teorias e se descuida da prática de cuidar de sua pátria ou de sua família. 
                            Para reconhecer o atuar divino por trás das ações humanas, aliás, citam-se as leis de Kentenich: a lei da porta aberta e a lei da resultante criadora. Quando a pessoa inspirada por Deus encontra portas abertas em todos os seus passos e enxerga frutos excepcionais nascendo de suas decisões, ela não está com "sorte" e sim profundamente aliada à vontade divina. Aplicando estas leis à história de Schoenstatt, haverá a confirmação de que o Santuário é fruto de uma notória intervenção de Deus. 
                        O livro também conta a história da criação do Santuário de Schoenstatt pelo Padre Kentenich através do Documento de Fundação de Schoenstatt de 18 de Outubro de 1914 na Alemanha. Kentenich era diretor espiritual de um grupo de jovens e, inspirado por Deus, foi movido a transformar uma capelinha abandonada em um Santuário cheio de Graças. Deus atuou através de Kentenich de modo simples e silencioso, sem grandes ações ou milagres na região. Schoenstatt não é um Santuário famoso por acontecimentos sobrenaturais nem por aparições extraordinárias, mas pela simplicidade da união entre o humano e o divino. Apesar de sua simplicidade, Schoenstatt guarda um grande poder: é capaz de transformar em santuário vivo todo aquele que vivencia o encontro com Cristo dentro dele. 
                         Existem muitos outros tipos de santuários ao redor do mundo e muitos são famosos pelos milagres e curas físicas que efetuam nos católicos visitantes. Schoenstatt, porém, não é conhecido por suas curas físicas, mas pelas curas morais, psicológicas, emocionais e espirituais que efetua no coração de cada ser humano que é abrigado por ele. 
                           É o Santuário que cura corações angustiados, que transforma ignorantes em sábios e ateus em apóstolos imbuídos pela missão de sua fé. Quem visitou o Santuário sabe da paz interior que experimentamos lá dentro. Essa "sensação" de paz dentro de uma igreja verdadeira não pode ser comprovada pela ciência do mundo mecanicista, mas é inegável que todos podem experimentá-la a partir do viver orgânico. 
                          Salienta-se que as três graças derramadas por Nossa Senhora no Santuário de Schoenstatt são: A graça do abrigo espiritual e de um profundo arraigamento, a graça de uma profunda transformação espiritual e a graça de uma vívida fecundidade apostólica. O número três está presente na trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), nas três graças de Schoenstatt e na denominação de Nossa Senhora: Mãe e Rainha três vezes admirável de Schoenstatt. 
                         Todo aquele que vai até Schoenstatt se sente abrigado espiritualmente, como se estivesse dentro do coração de Jesus ou no colo da mãe Maria, e se cura da sensação de "estar perdido" no mundo típica dos dias de hoje. Por causa dessa sensação de "lar" que o Santuário propõe é que houve a proliferação de filiais em todo mundo: qualquer schoenstatiano que saísse de sua terra natal iria naturalmente almejar a construção de uma filial a fim de se sentir abrigado. 
                         O schoenstatiano também sente uma profunda vontade de mudar, de se empenhar com amor nos seus deveres cotidianos e de reformar o seu coração, expulsando todos os vícios que levam à angústia e ao afastamento de Deus e renovando uma aliança com Deus por meio da virtude e da paz no coração.


                                            

As portas dos Santuários também seguem o mesmo padrão. Veja a beleza da porta! Este é o Santuário de Atibaia. 
                              



                           Por fim, ao sair do Santuário, é inevitável sentir uma vontade de propagar a sua fé, a visão orgânica de mundo e professar a teologia católica e o amor a Jesus e a Maria, razão pela qual a fecundidade apostólica é uma graça notável dentre aqueles que têm fé no Santuário de Schoenstatt. 
                               Esse é um livro que vale muito a pena ler, pois o católico fica sabendo mais a respeito do significado do Santuário, sua história e seu funcionamento. O leitor tem acesso, inclusive, às palavras originais do documento de fundação do Santuário além de ser instruído para construir um Santuário (se assim for a sua missão). 
                 É um livro de uma riqueza teológica fantástica e surpreendentemente agradável (pensei que fosse enfadonha a leitura, mas me sentia empolgada a cada página desse livro). A partir da leitura, eu aumentei não somente meu conhecimento intelectual, mas também pude compreender melhor a teologia católica, a importância dos elementos sensíveis enquanto pontes para o divino e fiquei com o meu coração ainda mais vívido de fé e vinculado ao Santuário de Schoenstatt. 
                                  A leitura é muito agradável, pois faz o leitor entrar em contato com as graças do Santuário, tira muitas dúvidas teológicas implícitas no leitor e reacende um debate profeticamente moderno sobre o nosso mundo e como curá-lo. Realmente, vale a pena uma leitura orgânica hehehe, ou seja, bem ao estilo do que o livro prega: não basta ler somente com os olhos e a mente, mas também com o corpo, a alma e o coração. Verdadeiramente este é um livro que me transformou numa pessoa melhor, em uma católica mais instruída e numa cristã mais forte. Se você tem espírito de peregrino, este livro é para você! Termino essa resenha com o lema schoenstatiano: "Vem, conhece e anuncia!"

Texto escrito por Tatyana Casarino

*Observações:

Trecho mais bonito do livro:




Padre Hernán Alessandri Morandé, o autor do livro "O que significa o Santuário de Schoenstatt?" 



"De acordo com o pensamento do Padre Kentenich, a função própria da ordem sensível -- em relação ao encontro do homem com Deus -- é a de garantir que a graça divina toque e penetre o homem em sua totalidade, penetrando também sua sensibilidade e seus sentimentos, atingindo até seu coração e seu subconsciente, para obter assim um tipo de cristão que realmente possa cumprir com a exigência bíblica de amar a Deus com toda a alma e com todo o coração. Se se desprezarem os meios sensíveis, não se garantirá este efeito total. O que se terá é um cristão frio e formalista, que tem certas ideias cristãs e se esforça para cumprir certos preceitos cristãos, mas que não pode verdadeiramente amar a Deus com todo o seu ser, porque ninguém pode amar somente com a cabeça e a vontade.

Este é o porquê da falta de impulso vital de nosso cristianismo atual: carece de força porque não penetrou todo o homem, porque seu desprezo pelos meios sensíveis o incapacitaram de penetrar todas as regiões profundas da alma humana, cuja importância é tão bem ressaltada pela psicologia moderna. 

O Pe. Kentenich afirma que um homem não está vitalmente formado em Deus enquanto a graça não penetrar o recôndito mundo de seus instintos, de seus impulsos afetivos e de seu subconsciente."

Páginas 78 e 79 do Livro "O que Significa o Santuário de Schoenstatt?" de Pe. Hernán Alessandri Morandé. 






*Santuários de Schoenstatt visitados pela Taty:

Há diversos Santuários espalhados pelo mundo, mas eu conheço dois santuários brasileiros: 




*Tabor da Filialidade Heróica (fundado em 11 de Abril de 1948) em Santa Maria/RS. Santa Maria, aliás, foi a cidade gaúcha pioneira no que tange à construção de um Santuário de Schoenstatt brasileiro. 

Em Santa Maria/RS, curiosamente, há sempre uma irmã schoenstatiana rezando dentro do santuário, o qual é cercado por uma beleza misteriosa. Morei nessa cidade durante boa parte da minha vida, desde a infância, e sempre me senti atraída profundamente por este santuário (minha fé floresceu bem cedo)... Mas, somente a partir da leitura deste livro, minha fé schoestatiana criou raízes mais sólidas e eu pude ter uma visão mais madura sobre o santuário. 

 Minha visão mais teológica de Schoenstatt aumentou o meu entendimento das razões pelas quais o Santuário precisa da presença de irmãs e de orações: é assim que o Capital de Graças (o trabalho ofertado pelos Schoestatianos à Mãe Rainha para merecer suas bênçãos no local) sobrevive dentro da Aliança entre o sensível e o sobrenatural. 

   Curiosamente, o Santuário de Santa Maria/RS sempre fez parte de minha vida. Todos aqueles que me visitaram nessa cidade conheciam o Santuário (é um dos pontos turísticos e religiosos principais da cidade). Além disso, participei de dois ensaios fotográficos nos jardins desse Santuário: o ensaio fotográfico de formatura (minha turma de Direito resolveu ser fotografada nessa região para colocar imagens nos cartões de convite à formatura) e um ensaio fotográfico de amizade (eu e duas amigas tiramos fotos por lá para guardamos de recordação, pois eu sairia de Santa Maria para morar em outra cidade). 

*Tabor da Esperança (fundado em 19 de Março de 2000) em Brasília/DF. 




   Ambiente agradável, verdejante como o de Santa Maria/RS, e repleto de muita paz espiritual. Não encontrei irmãs no Santuário, pois visitei o local em uma manhã de dezembro muito tranquila. Saí de lá com uma profunda paz no coração. A sensação de paz realmente mexe com os sentidos da gente em todos os níveis: sobrenaturais, sensíveis, instintivos, intelectuais e afetivos. 

  Há diversos bancos, árvores e pássaros pelo local. Perto do Santuário, há uma pequena loja que vende livros, santos e produtos católicos. Entrei na loja e a primeira coisa que eu vi foi este livro sobre o significado de Schoenstatt. Senti uma intuição muito forte de que eu deveria comprar este livro. Segui meus impulsos e comprei o livro no mesmo instante junto com uma imagem de Arcanjo Miguel e um calendário de 2019 (visitei o Santuário em Dezembro de 2018). 

   Li o livro durante as minhas férias nos meses de dezembro (2018) e janeiro (2019). Foi uma leitura muito agradável que me trouxe lágrimas de alegria e sorrisos. Um livro emocionante que merece ser apreciado e estudado. Sublinhei diversos trechos, usei canetas coloridas e marcadores de texto, marquei as páginas mais importantes com etiquetas coloridas -- tudo com capricho e amor. Li o livro com a alma mesmo -- do modo mais orgânico e pleno possível hehehe. 
    
    Depois de ler o livro, pesquisei mais informações sobre ele na internet e não achei -- acredito que a resenha de meu blogue seja pioneira. Também não vi o livro no Skoob (site de cadastro de livros), pois ele é tão antigo que não tem código de barras (o ISSN). Nunca vi este livro em livraria alguma nem na internet, razão pela qual sinto que fiz bem em seguir meus impulsos e comprá-lo na loja católica, pois ele parece ser muito raro. 


*Imagens do meu livro: 



*A imagem do Arcanjo Miguel e a capa do livro (comprados na loja católica que fica no local do Santuário de Brasília). 



*Em algumas páginas do livro, há fotografias das diversas filiais do Santuário de Schoenstatt espalhadas pelo Brasil. 







Calendário de 2019 comprado na loja católica ao lado do Santuário de Brasília/DF. Em cada mês, há uma frase inspiradora e otimista. No mês de abril, está a seguinte mensagem: "Em qualquer parte da terra um homem estará sempre plantando, recriando a vida, recomeçando o mundo." Cora Coralina. 








Tatyana Casarino.